Os “brandos costumes” deste povo português – ideia nascida no Estado Novo e alimentada por Salazar – entranhou-se de tal forma no pensamento, actos e omissões que se tornou numa variante genética, um gene recessivo maléfico,que nos trava e entorpece como se uma força invisível nos amarrasse aos cabos das tormentas. Neste país de impunidades e de imoralidades nada segue em frente. As naus continuam a perder-se com os cantos de sereia. E nós, povoados que estamos num imaginário besteário, incluindo ilhas maravilhosas e utópicas, navegamos alegres e tontos, mareados. Somos um povo de fraca memória que recusa assumir a sua História. Não vou falar dos descobrimentos, apresentados como feitos sobrenaturais onde os portugueses são heróis e nunca carrascos, nem das guerras das padeiras e das aparições em campos de batalha – não será por acaso que voltámos a ouvir citações de santos dos mais altos responsáveis da nação - mas de um tempo bem mais recente. Uma ditadura que conseguiu quase 40 depois de uma revolução, manter, nalguns aspectos, a sua presença. E falo da forma como os portugueses continuam a ser tratados por quem os governa e como se deixam governar. Amorfos, parados, titubeantes, receosos como se um agente da PIDE (polícia política para quem não se lembra) continuasse a olhá-lhos por trás da porta ou da mesa do lado no café. Será que ainda hoje mantemos vivos esses fantasmas porque os “brandos costumes” nos levam a deixar andar, esquecer para não arranjar problemas, mesmo que esse passado de ditadura tenha dado choques eléctricos no pensamento e nos corpos dos homens e mulheres enfiados em celas que interditavam a liberdade? Será que hoje aceitamos as desordens governativas porque continuamos com um pau de canga atravessado nos ombros, e assim gostamos porque logo nos benzemos à conta de deus, e deixamos que nos pisem, cortem o rendimento, sem um lamento colectivo, porque nascemos já vergados? Povo triste e receoso do seu futuro porque nunca fez o “luto” do seu passado, nem sequer com África. Que fizémos nós aos juízes dos tribunais plenários ao serviço do regime de Salazar e Caetano que condenaram portugueses a vários anos de prisão e a medidas de segurança sem prazo só para dar um ar de legalidade à ditadura? Nada. Que fizémos nós aos funcionários da PIDE e aos informadores e aos seus chefes, incluindo membros do governo, que nem registo há das sevícias e espancamentos, queimaduras, torturas de sono, um pacote que, por vezes, era servido em simultâneo? Nada. Seremos estátuas? Talvez. Vejamos a “estátua”, a grave tortura do sono. Imagine-se de pé durante vários dias e noites, impedido de fechar os olhos, alvo de ameaças por vezes com pistolas apontadas e baldes de água gelada pela cabeça abaixo, métodos que tinham por objectivo fragilizá-lo ao máximo e caçar informação para continuar a repressão? Nada. Não fizémos nada de sério. Não se apuraram nem se penalizaram os responsáveis, tal como hoje e ontem e anteontem e amanhã será o mesmo porque não interessa averiguar seja o que for. Esta mentalidade mantém-se. Este comportamento de povo cobarde e inerte não muda. Povo que gosta de demonstrar que é afoito e destemido, “agarrem-me se não eu faço isto e aquilo e aqueloutro” e nada faz porque a tal canga de séculos que gosta de carregar ou o baile pesado que ainda dança com correntes nos tornozelos, alimenta-lhe a alma de escravo. Nem a sua própria Constituição conhecem e não se incomodam que o poder proiba que esta seja estudada na idade da razão. * jornalista do DN nacional na Madeira

Lília Bernardes