De veia aberta, esperamos a esperança. 'Isto é o meu corpo' O súbito susto, a fracção de segundo suspensa de toda a respiração por que a vida acontece a partir de um outro que não o nosso corpo. O estranho primeiro olhar de um outro sobre nós. Cegos. É sempre do lado de fora que nos sentimos, que nos pensamos. Do primeiro ao último instante, somos estrangeiros que a si mesmos se não reconhecem ao olhar, ao toque, ao tom. O sabor por saber. A fala afásica. A 'boca bilingue' - quem és tu? (eu?) Um garrote, a veia aberta. O som surdo do vácuo a inspirar sangue, quente fogo lento. Não arde. Pode abrir a mão. Uma fria quadrícula a que encosto o peito. A luz vermelha não toca o corpo, sobrevoa-o desde o fundo da sala vazia. Acerta. Não respire. Pode respirar. Uma linha inquieta tenta inscrever em estreita folha de papel quadriculado a actividade do que no coração varia. A pele liberta de eléctrodos. Pode levantar-se. Depois dos corredores, andares vários, elevadores, as mãos nuas. O quarto indiferente, o eco. A agulha por dentro da veia, gota a gota. Os papéis fartos de fórmulas, medidas, linhas. A radiografia, em contraste certo, cinzento preto branco. Isto não é o meu corpo. Antes dos perigos, certezas certeiras onde mora a vida. Uma mesma banda sonora, palavra por palavra. Ave canora tu, 'Diane Keaton' ao volante eu. Uma biblioteca no porta bagagens, a primeira gargalhada. Um gomo da mesma laranja, perguntas pausadas, olhar e silêncio atentos. Pássaros ou peixes, carros ou aviões, mapas e soldados, a inquietude catraia de experimentar uma nova receita, de abrir uma garrafa antiga de ginjinha em dia de festa. Mergulhar em mar azul cobalto, óculos e sorriso aberto de criança a-ver-peixinhos. Nadar suavemente, estilo anos vinte, sem mas como se a usar touca. Jornais e futebol, e saber de assuntos raros com a naturalidade de sentir que está calor. O porte firme, as poucas fraquezas silenciadas, a coragem à escala da altura. Gostar de História e do Mediterrâneo. Não perder tempo com debates estéreis sobre a parte debaixo da vírgula. Tu és um filme do Bergman, tu uma actriz francesa e tu (digo eu) uma italiana. Havemos de ir à Cornualha. No Índico o amanhecer não é assim tão diferente (agora sei). Reconhecer nas mãos trémulas a pressa de viver, a linha sinuosa do lápis a sublinhar livros que, sabemos, já estão em nós inscritos, de cor. Cantar, cantar a sorrir, deixar-se abandonar às histórias das canções em curva e contra curva na dança dos dias compridos de verão. Abandonar-se a uma sesta imprevista como ao sono em fins de tardes na infância, sem se saber ser assim o sossego maior. Acreditar - e acreditar nisso - que se pode ter o sol dentro do bolso (por estar desenhado na tampa de uma garrafa de água). Correr, correr com o tempo, correr com o vento. Subir às árvores com o olhar. Saber a arte de brincar, saber cuidar, saber entender e silenciar nuvens sobre o olhar. Reconhecemo-nos. Sabemos o conforto de nos sabermos uns dos outros. Sabemos que nos podemos perder porque estamos. Porque nos somos. Guardamos sombras que silenciamos. Estamos todos quando um de nós cai. Caímos e levantamo-nos, entre um abraço sem tempo, um copo de tinto e uma massa feita a quatro mãos. Mortes e perdas, de uns, de todos, sonos suspensos em segredo, monstros-que-não-há debaixo da cama (parecia), e um dia a vida parece parar. É sempre do lado de fora que nos sentimos, que nos pensamos. É sempre por dentro dos nossos que nos reconhecemos. Olhamo-nos. Temos cicatrizes por dentro da pele, do corpo, da vida. Morreu em nós a inocência. Conhecemos o medo. Dói-nos o futuro. Agora nos sabemos vivos. Este é o súbito susto, a fracção de segundo que suspende toda a respiração. Temos que aprender uma hora nova, outro caminho, como viver os dias. Nem cegos nem afásicos. Esperamos a esperança. De veia aberta, esperamos a esperança. 'Isto é o meu corpo' (Marcos 14 : 22). Diana Pimentel, Docente universitária Diana Pimentel

De veia aberta, esperamos a esperança. 'Isto é o meu corpo'

O súbito susto, a fracção de segundo suspensa de toda a respiração por que a vida acontece a partir de um outro que não o nosso corpo. O estranho primeiro olhar de um outro sobre nós. Cegos. É sempre do lado de fora que nos sentimos, que nos pensamos. Do primeiro ao último instante, somos estrangeiros que a si mesmos se não reconhecem ao olhar, ao toque, ao tom. O sabor por saber. A fala afásica. A 'boca bilingue' - quem és tu? (eu?) Um garrote, a veia aberta. O som surdo do vácuo a inspirar sangue, quente fogo lento. Não arde. Pode abrir a mão. Uma fria quadrícula a que encosto o peito. A luz vermelha não toca o corpo, sobrevoa-o desde o fundo da sala vazia. Acerta. Não respire. Pode respirar. Uma linha inquieta tenta inscrever em estreita folha de papel quadriculado a actividade do que no coração varia. A pele liberta de eléctrodos. Pode levantar-se. Depois dos corredores, andares vários, elevadores, as mãos nuas. O quarto indiferente, o eco. A agulha por dentro da veia, gota a gota. Os papéis fartos de fórmulas, medidas, linhas. A radiografia, em contraste certo, cinzento preto branco. Isto não é o meu corpo. Antes dos perigos, certezas certeiras onde mora a vida. Uma mesma banda sonora, palavra por palavra. Ave canora tu, 'Diane Keaton' ao volante eu. Uma biblioteca no porta bagagens, a primeira gargalhada. Um gomo da mesma laranja, perguntas pausadas, olhar e silêncio atentos. Pássaros ou peixes, carros ou aviões, mapas e soldados, a inquietude catraia de experimentar uma nova receita, de abrir uma garrafa antiga de ginjinha em dia de festa. Mergulhar em mar azul cobalto, óculos e sorriso aberto de criança a-ver-peixinhos. Nadar suavemente, estilo anos vinte, sem mas como se a usar touca. Jornais e futebol, e saber de assuntos raros com a naturalidade de sentir que está calor. O porte firme, as poucas fraquezas silenciadas, a coragem à escala da altura. Gostar de História e do Mediterrâneo. Não perder tempo com debates estéreis sobre a parte debaixo da vírgula. Tu és um filme do Bergman, tu uma actriz francesa e tu (digo eu) uma italiana. Havemos de ir à Cornualha. No Índico o amanhecer não é assim tão diferente (agora sei). Reconhecer nas mãos trémulas a pressa de viver, a linha sinuosa do lápis a sublinhar livros que, sabemos, já estão em nós inscritos, de cor. Cantar, cantar a sorrir, deixar-se abandonar às histórias das canções em curva e contra curva na dança dos dias compridos de verão. Abandonar-se a uma sesta imprevista como ao sono em fins de tardes na infância, sem se saber ser assim o sossego maior. Acreditar - e acreditar nisso - que se pode ter o sol dentro do bolso (por estar desenhado na tampa de uma garrafa de água). Correr, correr com o tempo, correr com o vento. Subir às árvores com o olhar. Saber a arte de brincar, saber cuidar, saber entender e silenciar nuvens sobre o olhar. Reconhecemo-nos. Sabemos o conforto de nos sabermos uns dos outros. Sabemos que nos podemos perder porque estamos. Porque nos somos. Guardamos sombras que silenciamos. Estamos todos quando um de nós cai. Caímos e levantamo-nos, entre um abraço sem tempo, um copo de tinto e uma massa feita a quatro mãos. Mortes e perdas, de uns, de todos, sonos suspensos em segredo, monstros-que-não-há debaixo da cama (parecia), e um dia a vida parece parar. É sempre do lado de fora que nos sentimos, que nos pensamos. É sempre por dentro dos nossos que nos reconhecemos. Olhamo-nos. Temos cicatrizes por dentro da pele, do corpo, da vida. Morreu em nós a inocência. Conhecemos o medo. Dói-nos o futuro. Agora nos sabemos vivos. Este é o súbito susto, a fracção de segundo que suspende toda a respiração. Temos que aprender uma hora nova, outro caminho, como viver os dias. Nem cegos nem afásicos. Esperamos a esperança. De veia aberta, esperamos a esperança. 'Isto é o meu corpo' (Marcos 14 : 22).

Diana Pimentel, Docente universitária

Diana Pimentel