Quando se pensava que o Presidente da República estava atento às graves dificuldades que atingem meio país e assustam a outra metade, Cavaco Silva consegue surpreender. Em vez de ouvir o que diz o país inteiro, com excepção dos governantes, o Presidente pede conselhos para preparar Portugal para a bonança. Não é para indicar o caminho para sairmos deste marasmo, não é sobre como criar emprego, não é para apoiar os jovens e idosos e a classe média e as empresas; é para nos prepararmos para o que vier quando a ‘troika’ for embora. Esta visão futurista até seria compreensível se o estado em que nos encontramos não fosse tão calamitoso. Preparar o futuro é uma medida aconselhável em qualquer circunstância e não há mal nenhum nessa previsibilidade. O mal é quando se tem um Presidente totalmente incapaz de perceber o que se passa no presente e ainda se mete a adivinhar o futuro. Esse é que é o problema. Esta tendência para andar muito à frente não é inédita em Portugal. Está em linha com o que fazem ministros, secretários de Estado, presidentes de Governos Regionais, de Câmaras ou de Juntas de Freguesia. É a forma mais simples de exercer o poder. Em vez de atacar os problemas, políticos destes seguem um de dois caminhos: ou dizem como se deveria ter feito antes, ou como deve fazer quem vier a seguir. Raramente sabem como fazer para resolver a crise do momento. Falar do tempo que virá sem olhar ao tempo que temos é tão vazio como pensar no que será o jantar quando ainda nem se sabe o que servir ao almoço. E não me digam que este procedimento é de um presidente visionário, nem mesmo depois de decretar outro milagre de Fátima. É, isso sim, o de um presidente demissionário.