Dir-se-ia que as ruas flúem serenas na noite. As luzes não são tão nítidas que ajudem a revelar o segredo, o segredo dos homens que passeiam, conhecem, porque estão todos imersos no segredo. Não ganhariam nada em fragmentá-lo. Sim, é bom guardá-lo e dividi-lo só com a pessoa eleita.
Se cada um falasse uma vez só, e com uma só palavra, aquilo que pensa, as letras do desejo moldariam uma cicatriz cintilante, uma constelação ardente como o desejo no corpo profundo da noite, ou como os gémeos que pela primeira vez na vida se olham de frente, e se abraçam para sempre.
A rua enche-se como um rio de seres ávidos, caminham, aguardam, prosseguem. Trocam olhares, ensaiam sorrisos, formam pares imprevisíveis… Há esquinas e bancos sombrios, auras indistintas, formas profundas, e súbitos vãos com uma luz que cega e portas que cedem à mais leve pressão.
A rua fica deserta num instante. Parece afugentar de si mesmo o desejo de começar de novo. Tudo parece paralisado, mudo, ofegante como o coração entre dois espasmos. Mas uma nova pulsação lança ao rio da rua outros seres sedentos. Cruzam-se, e sobém, voam do rés do chão, nadam de forma maravilhosa e ninguém se atreveria a dizer que não caminham.
São Anjos, desceram à terra através de degraus invisíveis. Vieram do mar, o espelho do céu, em barcos de fumo e sombra, a fundir-se e confundir-se com os mortais, a inclinar os seus rostos para os rostos das mulheres, a deixar que outras mãos toquem febrilmente os seus corpos e que outros corpos procurem os seus até encontrá-los como os lábios que se fecham, a fatigar a boca tanto tempo estagnada, a libertar as suas línguas de fogo, a dizer juramentos, palavras e canções com que os homens concentram o antigo mistério da carne, do sangue, e do desejo.
Têm nomes fictícios, sinceramente divinos. Chamam-se João ou Pedro, António ou Mateus. Em nada, senão na beleza, se distinguem dos mortais. Passeiam, aguardam, e seguem. Trocam olhares, ensaiam sorrisos, formam pares imprevisíveis.
Sorriem astuciosos ao entrar nos elevadores dos hotéis donde ainda praticam um voo lento e vertical. Em seus corpos nus há vestígios celestiais, signos, estrelas, e letras azuis. Deixam-se cair nas camas, e afundam-se nas almofadas que os fazem pensar um momento nas nuvens. Mas logo fecham os olhos para se entregar aos gozos da sua misteriosa encarnação, e quando dormem não sonham como os Anjos, mas como os mortais.
Renata Camacho