Há anos escrevi neste espaço um texto inspirado na obra de Zola "J'accuse".
Referia-me à necessidade da sociedade de informação proteger a dignidade das pessoas, o que exige rigoroso cumprimento das regras de ética. A publicitação de assuntos reservados e íntimos deve ser evitada quando apenas servem ou quando se procuram ou se atingem objectivos indignos para os direitos humanos. Recentemente fez-se notícia de um processo judicial de extorsão. A causa da notícia não foi a extorsão mas foi a qualidade da vítima e os seus actos. O efeito da notícia - quando se publicita a identidade da vítima e não a do agressor - não foi tornar aceitáveis as decisões da justiça, mas expor e aumentar a dor de quem foi extorquido e da sua família.
Defendo que as notícias contribuam para a prevenção geral, ilustre mas consequências nocivas dos actos ilícitos e procurem criar a consciência colectiva do bem e do mal. Mas, para além do resguardo que deve merecer um processo judicial ainda não decidido e em julgamento, que alguns parecem repetidamente esquecer, há casos que correm nos Tribunais cuja revelação pública prejudica mais os legitimamente queixosos do que os arguidos. E a comunicação social se quiser desempenhar algum papel ético e formativo, não pode esquecer isto.
A chamada de primeira página e o texto também atinge a instituição e o conjunto de homens que a servem. Salta-se com facilidade e irresponsabilidade do particular para o geral, do individuo para a colectividade. Passa a ser mais grave a reacção da Igreja ou a alegada falta dela do que o acto que está em julgamento que, neste caso, já nem parece interessar.
O que está por detrás, ainda é mais preocupante. Os maiores defensores da liberalidade dos costumes, armam-se em "doutores da lei"e sublinham na praça pública o erro e não o seu arrependimento. Tal como há dois mil anos pedem o apedrejamento porque essa é a moral que gostam de acicatar e insistem na pergunta: o que vão fazer do homem?
Alguém, porém, continua a escrever no chão. Esse Alguém continua a lembrar a legitimidade da primeira pedra. O mesmo Alguém pede que nos olhemos ao espelho antes de, dedo em riste, acusarmos ou insinuarmos.
A quebra da autoridade dos "doutores da lei" foi na altura um escândalo. A crítica implícita à lei de Moisés, a liberalidade de Jesus e o desafio da misericórdia continuam porém a custar de aceitar. Mas creio ser o único caminho.
Reconheço que pode propiciar leituras ávidas esses novos julgamentos populares, especialmente quando invadem as falhas e exploram os erros. Na prática porém contribuem para a desumanização da sociedade e para a arrogância de costumes que a ninguém é legítimo.
No fundo extorsão também é se aproveitar das debilidades humanas para objectivos que nada têm a ver com a justiça!
Ricardo Vieira