Todos sabemos quanto é cada vez mais importante desenvolver uma comunicação, com objectivo último de venda, focalizada no potencial consumidor em detrimento da mera exaltação das características únicas do meu produto. Vem isto a propósito do relativo sucesso do mercado francês na Madeira (a par do Porto e Norte de Portugal), quer em termos de volume já atingido, quer em termos das taxas de crescimento, que contrasta com o comportamento de mercados ditos tradicionais, de habitual sustentação da procura. A França, o 3º mercado externo com 1198.252 hóspedes registados na hotelaria madeirense, em 2012, representou 14,6% do total de hóspedes estrangeiros entrados na Região revelando uma dinâmica notável nos últimos cinco anos, já que essa proporção era de 8,2%, em 2007, contrariamente aos mercados inglês e alemão, 1º e 2º mercados do destino, que passaram, em conjunto, de 51,0% nesse ano para 45,1%, em 2012. É óbvio que este sucesso se deve, em muito, ao aumento das ligações aéreas directas em proveniência de várias cidades francesas facilitadas pela insegurança que vêm afectando destinos tradicionais dos franceses como é o Norte de África, mas também é verdade que esta nova orientação pode ficar para durar se o cliente francês encontrar aqui a paz e a satisfação que busca no seu período de férias. Mas, será que fazemos tudo para ir ao encontro das motivações e desejos deste tipo de turista com uma cultura muito própria e com hábitos que nem sempre coincidem com os dos tradicionais anglo-saxónicos que acabaram por condicionar a procura do destino Madeira? Desde logo, ocorre-me perguntar se cada hoteleiro interessado tem o material de consulta devidamente traduzido na língua de Molière, incluindo as ementas e as sugestões de emprego de tempo, dentro e fora do hotel? Dispenso-me de sublinhar quão importante é ter pessoal habilitado para falar com o cliente, em particular na recepção, por ser mais que óbvio. Acresce que não é muito comum os hotéis disporem de canais TV em francês, justificando-se aqui, não só a visualização de canais tipo TV 5 Monde, mas também, e sobretudo, canais de informação em directo, dado que a necessidade de informação é um requisito que qualquer cidadão contemporâneo não dispensa, mesmo em férias. Por outro lado, sabe-se que o francês gosta de comer e beber bom vinho tendo até alguma arrogância em afirmar que, contrariamente aos ingleses e alemães, eles, os franceses, sabem apreciar a gastronomia do país e, se for o caso, degustar os vinhos locais. Por outro lado, ainda, o francês é tido como um cliente que gosta de «descobrir» e experimentar o autêntico, designadamente no contacto com as gentes dos locais que visita, particularidade que os portugueses em geral, com a sua proverbial hospitalidade, sabem muito bem corresponder. Tudo isto porquê? Porque «as moscas apanham-se com mel», logo, se eu quero ter uma vantagem competitiva na atracção de franceses para o meu hotel, tenho de ter em conta a especificidade da sua cultura que se traduz, por exemplo, na própria animação da minha unidade que deve ter em conta as diferentes nacionalidades em presença, pois o que agrada a um inglês ou mesmo a um alemão, pode não agradar necessariamente a um francês (e, normalmente, não agrada). Por isso, como o que eu quero, é, não apenas captar mas também fidelizar o cliente francês que me procura, tenho de reflectir na operação do meu hotel o que esse cliente procura, o que lhe agrada e, sobretudo, o que rejeita liminarmente. Vive la France?
Nuno Jardim Fernandes, Gestor