O filósofo francês André Comte-Sponville afirma, no último número da revista LePoint (Réferénces), que a sabedoria está na moda. Esta afirmação encerra um evidente paradoxo, uma vez que a própria natureza da sabedoria é incompatível com a noção de moda. Uso a referência a propósito da actual obsessão pela necessidade de renovar a nossa imagem do mundo. Assisto a tantas e tão sábias interpretações sobre o epifenómeno da crise, tanto entendida como crise financeira como identificada como crise de valores. Em boa parte dos casos, os acontecimentos do nosso pobre planeta são comentados como se fossem inteiramente novos, como se a história humana nunca tivesse registado algo idêntico ou sequer semelhante. Acontece, porém, que a espécie sapiens já por cá progride há cerca de duzentos mil anos, salvo melhor e mais digna datação. Afinal, reavivando noções do grande teórico da comunicação, Marshall McLuhan, o homem, antes de aceder à aldeia global, percorreu um longo caminho. Viveu na tribo, descobriu mundos e fundou nações e impérios. Eis-nos, portanto, chegados à mais recente versão do ser humano, a de um homem sábio, apurado por milénios de acumulação de sabedoria, da mais pura e experimentada sabedoria. Será? Penso que tudo isto nos deve conduzir a um certo sentido de conveniência e de equilíbrio na investigação de acontecimentos que se enquadram na longa história de factos, conflitos, processos de pacificação e demais mitografias e sublimações que escreveram a gramática da natureza humana. E já que referi a necessidade da sabedoria para a aproximação à análise do que quotidianamente nos acontece, prefiro aqui fazer profissão de fé na nossa capacidade de resolver conflitos e crises. Não aceito as ideias catastrofistas da inevitabilidade da guerra ou da falência da democracia. A história ensina que as crises prolongadas criam as condições ideais para a emergência daqueles estados, mas também prova que uma vez alcançados, a sua resolução tem um preço altíssimo. Quando se perde a democracia, levamos dezenas de anos ou séculos a recuperá-la. No seu seio, a construção de saberes e a evolução tecnológica demonstraram, pelo menos no modelo ocidental, que foi generosa para melhorar as condições de vida de milhões de pessoas. Desse processo, participaram também as universidades, instrumentos utilíssimos para a preparação de gerações de cidadãos que promoveram a mudança, através da investigação fundamental, da inovação e da tecnologia. Na reflexão sobre a sua actual função, a Universidade não pode eximir-se a colocar as suas variadas áreas e especializações ao serviço da sociedade, de modo a apresentar soluções que a ajudem a evoluir no sentido de ultrapassar os constrangimentos com que se confronta. A oferta de cursos, a gestão de projectos de investigação ou a ponderação de formulações adequadas a casos específicos permitirão à Universidade corresponder àquilo que dela esperamos. Deverá também afirmar a sua vocação universalista, mediante uma eficaz e produtiva colaboração como meio envolvente, ademais enriquecida com a intensa e pertinente abertura ao exterior. Este processo de internacionalização conduzirá a Instituição e todos quantos nela participam ao entendimento activo acerca do seu lugar no mundo globalizado. Terá que aí viver, sem prejuízo de aqui estar.
Sílvio Fernandes, Vice-Reitor da UMa