Laíz Vieira - O impasse em que nós vivemos actualmente, cria novas possibilidades mas também traz retrocessos, vejamos: em Machico, circula uma carroça puxada por um cavalo. E eu pergunto, onde está a pertinência de uma tradição quando esta implica o sofrimento gratuito e a exploração de um ser vivo? E para quem considera esta situação nada abusiva, que tal invertermos os papéis e colocarmos uma pessoa, que não escolheu essa situação, a desenvolver todo um trabalho de carga?! O cúmulo, é quando as pessoas acomodaram-se a pensar que os animais não valem por eles próprios, mas sim pelo que dão às pessoas. - Não são apenas os turistas que se revoltam com os maus tratos a animais. É por exemplo constrangedor, passear pelas prazerosas ruas do Funchal e ter que encontrar constantemente o negócio, a subjugação de aves, na Placa Central da Avenida Arriaga. Se essas empresas que dizem abusivamente, defender os direitos dos animais, promovessem passeios pela natureza para observar no próprio habitat as aves e toda a biodiversidade, aí sim, fariam um trabalho nobre e pedagógico. Estas aves não passaram por um todo processo de aprendizagem, junto com os seus progenitores para desenvolverem a autonomia e competências próprias que os seus pares desenvolvem em liberdade. Tornaram-se animais reprimidos, aves sem alma, "bibelots" para serem fotografados com alguém que sorri, sabe-se lá de que. - Em Santa Cruz, na Quinta do Revoredo (que deveria ser realmente um espaço de dignificação da Cultura), já se realizou a primeira mostra de aves exóticas, como se coleccionar aves fosse o mesmo que coleccionar objectos ou produtos! A forma de gostar, de amar está muito deturpada nas nossas sociedades. O afecto não passa pela coisificação, pela materialização do outro ou por impor ao outro a nossa vontade e a nossa imagem. - "Foi visto um homem acorrentado a uma casota, com espaço limitado para se movimentar. Abandonado às horas que passam, é exposto ao frio, à chuva, ao calor sem que ninguém entenda a sua natureza e necessidades primordiais". - Ao lermos uma notícia destas, penso que a maioria de nós ficaria chocada e perplexa. Se substituirmos a palavra homem por animal, infelizmente a indignação já não pertenceria a todos. Na maioria dos livros sobre Ética, esta reconhece que as razões que se apresentam para ser inadequadas e injustas para que um humano se encontre acorrentado e subjugado por alguém, são as mesmas para todos os outros seres sencientes. Nada comprova a superioridade do humano a não ser ele que a afirma. - Uma corrente, uma jaula, um celeiro, um aquário, uma varanda não são espaços para a vivência de seres maravilhosos e o mesmo é tudo o que limite os seus movimentos, a sua expressão a sua vivência em harmonia connosco.