Desconfiem do chavão "as pessoas não são números". Para além de um imperativo de método, reconhecer que as pessoas são números é um pressuposto necessário para identificar o importante inverso - o de os números serem também, e tantas vezes, pessoas. É conhecida a parábola dos dois vendedores de sapatos que vão em prospecção a um país primitivo. No regresso, o primeiro é peremptório: 'Extraordinária oportunidade de crescimento! Eles não usam sapatos'. O segundo diverge ligeiramente no relatório: 'Região sem interesse para a nossa empresa. Eles não usam sapatos'. A história destrói a suposta contradição entre números e pessoas. Ambos os vendedores fizeram bem as contas. O seu erro foi axiológico - nenhum descobriu se usar sapatos tinha valor para os habitantes do país. O erro do Governo e da Troika foi também axiológico. Decidiram com base numa realidade idílica onde todo o desempregado mete terra entre as unhas, vai arrastar peixe para a ZEE, abre um conceito de hospedagem, ou é greenlighted por um business angel para uma start-up de software. Colocaram todas as fichas numa colisão forçada entre espécies onde o mais forte triunfasse ou resistisse e a partir de onde o mais fraco se adaptasse. Mas os sobreviventes precisam de uma razão para lutar. Precisam de encontrar valor na mudança para acreditar nela e desempenhá-la. Essa fé na mudança não sobrevive à falta prolongada de resultados. Sob pena de ser desmistificada, a fé precisa de ser recompensada. Houve ecos dessa recompensa nas reacções à decisão do Tribunal Constitucional. Porventura fartos de oposição inócua e descredibilizada, os portugueses aplaudiram a resistência à austeridade em nome da Justiça. A Justiça, perversa, tem um custo. O Governo continua com € 1.300.000.000 por preencher. Tem de os ir buscar algures. Conforme o TC deixou claro, tem de os ir buscar respeitando a igualdade e proporcionalidade constitucionais. Se não o conseguir fazer, ficaremos tão perto quanto possível de admitir que o sistema é insustentável - que os órgãos de soberania não têm capacidade para cumprir simultaneamente os seus mútuos com credores e o seu contrato social. Que a alternativa será, afinal, entre um Estado injusto que paga as contas e um Estado justo cuja justiça depende do dinheiro dos outros. (Nesse ponto, será difícil defender novas eleições. Talvez [e infelizmente] Ferreira Leite profetizasse quando, em tom de gozo, desejou 6 meses de Ditadura para endireitar tudo. O conceito arrepia e a substituição sem eleições é traumática, mas não deixa de parecer suave quando nos perguntamos honestamente pelos meses necessários a Seguro para endireitar alguma coisa.) Sexta-feira deixou, por isso, um sinal importante. Cumprir passou a ser difícil. Já não dá para alternar catastrofismo sádico e utopia tola à voz da conveniência. Já não dá para decepar o ministro impopular e siga. Já não dá para mandar quem criou o problema resolver. Já não dá para cortar em rendimentos pessoais. Já não dá para discussões kafkianas sobre limitação de mandatos e para amnistias de Sócrates em horário nobre. Já não dá para a política do costume. Dá para a Política com P maiúsculo. Dá para quem conseguir transmitir valor à mudança que exige e inspire as pessoas, confiando na inerência dos números a esse sentimento. Fora isto, há um devastador e imprevisível vórtice de sacrifícios inúteis. Fora isto, há zero. Fora isto, somos zero.

Pedro Fontes