Faz hoje 39 anos que se deu a revolução dos cravos, o movimento das Forças Armadas que acabou com quase cinco décadas de ditadura em Portugal. Acabado de completar a minha primeira década, não fazia a mínima ideia do que era um golpe de estado, muito menos do que tinha sido uma ditadura, nem compreendia a alegria e as palavras de ordem de muitos. Sabia que haviam conquistado uma liberdade, mas não entendia para que servia essa liberdade, os meus dez anos não sabiam o que era censura, pide, política. A idade deu-me a consciência do que realmente acontecera, a compreensão para essa liberdade que não significa "não estar preso numa cadeia", mas representa um direito de cidadania. Saúdo o feriado pelo significado que tem para muitos que sofreram agruras por quererem exprimir a sua opinião ou, simplesmente, porque os executivos da ditadura embirraram com eles. E saúdo todos os que lutaram e fizeram por acontecer o 25 de Abril, uma gratidão imensa aos Homens que colocaram em risco a sua vida e liberdade para que hoje não sejam fascistas a determinar o nosso pensamento. Há quem não queira festejar a data, travestido de moralista do regime pós-ditadura. Esses, provavelmente, terão lamentado a revolução e até elogiado Salazar e Caetano. São os que tinham mesa posta todos os dias, amigos na pide e emprego para a família. O 25 de Abril serviu para muito e para muitos, importante foi proporcionar a todos as mesmas oportunidades. Sabemos que a democracia não é perfeita, mas não o é porque há gente que a aplica de forma imperfeita. E onde existem dois homens, há sempre um a querer mais do que o outro, transportem isto para partidos e temos o caldo entornado. A revolução serviu, para além de repor as liberdades de cada um, para que alguns se apropriassem demasiado da capacidade de legislar em causa própria, os políticos. Hoje não há luta contra a ditadura, há sim um parlamento democrático com um partido ou uma coligação que governa e vários partidos na oposição. Ambos compostos por cidadãos que eram ou se tornaram políticos e que acabaram por criar leis para defender os seus interesses, esquecendo a governação ou a defesa do Povo, atribuindo-se milhões em completo desprezo por muitos milhares em dificuldade.Perpetuamdepois as facilidades próprias através de empresas púbicas ou de grupos económicos que convivem muito de perto com o poder, sendo-lhes oferecidos os chamados "tachos". Alguns cometeram verdadeiros crimes de decisão, por negligência ou incompetência, lesando cidadãos e contribuintes sem lhes ser assacada qualquer responsabilidade na maior parte dos casos e, quando chega à hora da verdade, ai (!) que prescreveu. O 25 de Abril permite que, por exemplo, um deputado europeu tenha vergonha do período de reflexão na Venezuela e orgulho nas maduras reflexões da Madeira. Permite que haja gente a afundar impunemente dezenas de milhões numa marina ou num jornal, protegida por uma maioria democrática. Permite que exista convívio à mesa entre instituições que acabaram de se digladiar em tribunal. Permite que se chame discretos a empresários com brutos iates e aviões. Permite que se dê aval ou conceda benefícios fiscais no valor do PIB de uma região sem se saber o que é que essa região ganhou. O 25 de Abril trouxe tanta liberdade que há gente a festejar o dia 26. E muitos outros, escondidos, o dia 24. Mas esta revolução há-de ter sempre mais idade do que Jardim no poder.
Paulo Gomes