
— Liberdade, que estais no céu... Rezava o padre-nosso que sabia, A pedir-te, humildemente, O pio de cada dia. Mas a tua bondade omnipotente Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra... E a minha voz crescia De emoção. Mas um silêncio triste sepultava A fé que ressumava Da oração.
Até que um dia, corajosamente, Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, Saborear, enfim, O pão da minha fome. — Liberdade, que estais em mim, Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga, in 'Diário XII'
Amanhã, a Liberdade sopra 39 velas na rua. Pobre Liberdade que, chegada à meia-idade é devolvida à esquina, ao berço primitivo feito de pedra de calçada. Mais do que a tradição, a Assembleia Legislativa da Madeira rompe da sua agenda o episódio mais revelante da história recente da política em Portugal. E até parece que ficam redondos de orgulho por não permitirem que ninguém celebre lá dentro a deposição do regime ditatorial do Estado Novo. Com ou sem cravos na lapela. Ecoando dentro ou fora o ‘Grândola, Vila Morena’. Logo ali, naquela casa redonda de prepotência que enlutou a Autonomia e insiste em enterrar viva esta nossa Liberdade, a Democracia é desprezada pelo seu próprio constituinte, qual filho toxicodependente que usurpa e renega a própria mãe.
A rua ninguém nos rouba. Ninguém nos fecha as portas. No berço da Liberdade, germinam movimentos cívicos de indignação que trazem um perfume a cravos às flores plásticas que ornamentam o ajardinado cemitério da Autonomia. O nosso 25 de Abril de 2013 não será dirigido por oficiais intermédios da hierarquia militar, saturados da ditadura e da Guerra do Ultramar, mas por novos ‘capitães’ de Abril, saturados do massacre às famílias, às empresas, à débil economia ultraperiférica. São os herdeiros da dívida oculta, dispostos a acertar contas com a política da propaganda que esbanja mais em tetrápodes e alcatrão do que em matar a fome nas cantinas sociais e nas escolas. São activistas dispostos a combater mitos alimentados pelo regime insular como o separatismo que, à imagem do ideário salazarista “orgulhosamente sós”, cultiva nas pessoas a ignorância intelectual enclausurando o Povo na sua própria pequenez. São ministros da indignação social que aparecem a combater as manobras políticas que expurgam a responsabilidade governativa para além-mar escudando-se na imunidade. São vozes do Povo que se prontificam a dar rosto e sentido à Liberdade para resgatar e democratizar a Autonomia mantida no cativeiro do poder até à total ruína.
É certo que faltam soldados para fazer Abril. Por medo de assumir convicções, de abraçar bandeiras, de exercer a simples cidadania, silenciam-se as consciências. Nós, Madeirenses, somos também vítimas deste mito do separatismo que nos coloca diante um dilema fabricado à medida de um Salazar dos tempos modernos: “ou nós, ou eles”, sendo que ‘nós’ representa a submissão ao jardinismo e ‘eles’ o distante poder central, instalado a 974 km após a última língua de terra. Faz falta soldados como José Luís Peixoto: “o pior medo é o medo de nós próprios”. Faz falta homens livres que não receiam ir “até ao fim da sua razão” (Jules Renard). Porque Abril faz falta.