Não sou eu. Somos eu. O mapa não cabe no corpo, pensou. A mulher tentava o gesto preciso de dobrar a larga folha da página única do mapa no vinco exacto do papel como se pudesse regressar ao instante anterior ao território ter sido pela primeira vez olhado, aberto. A europa tremia-lhe nos dedos: linhas, cores, nomes, vazios. A mulher tremia na Europa: Funchal, Lisboa, Paris, Frankfurt, Estrasburgo, Berna, Basileia. O torpor dos sons das línguas atingia-lhe a cabeça, trémula como as mãos. De todos os continentes quase só lhe tocava o eco surdo de vozes alheias, estrangeiras. A mulher procurava e perdia coordenadas, passos, palavras. Tinha a memória partida como partida era a europa do mapa. A dor é afásica. Estradas, artérias; rios, veias; pontos, poros; países, membros; capitais, órgãos; nomes, alfabeto; quilómetros, tempo; oceanos, vazio: o território era o seu corpo em queda, a sucumbir ao peso do pé pesado da morte sobre o peito, entre dias a abater tarefas sem em nada atenuarem o tempo, sem regresso. A dor é daltónica. [ o lápis, o mapa, o telefone, para saber ter, ou pelo menos ler, latitude, longitude, um qualquer ponto de gravidade em que pousar. o olhar tumultuado. primeiro uma ponte, curvilínea em altura, sobre o jardim atravessado pela manhã. uma voz que ouço sem reconhecer interpõe-se entre o meu corpo e o céu ainda desacordado do dia. uma senhora antiga pronuncia sons que sei serem palavras mas não sei quais. situamo-nos por fim na língua franca da dor – a senhora com voz de vento e gestos aéreos fala da velhice, do corpo exangue sob o peso do tempo, de partida. entendo-a, então. serena, sorri. mostra-me uma folha, pessoas desenhadas abraçam-se no papel colorido. fala-me da ressurreição de ___. e sorri, serena. atónita e muda, despedi-me com um aceno breve. reconheço a palavra mas não sei o que ela diz. soube-o nos joelhos, curvos como a plataforma da ponte; perdi altura, em queda que procura. a seguir o eléctrico lento por dentro da cidade, nos carris como se em direcção a um futuro sempre depois de ___. pulsa, sinto-o nos pés, como se a circular por dentro de artérias, da cabeça ao coração. dentro da carruagem o dia é claro, a luz em câmara lenta: uma silenciosa rapariga lê um livro alheia ao meu olhar, o dela pousado como as mãos na curva apenas entreaberta do livro, linha a linha, letra a letra, em direcção a ___. o futuro está parado, a rapariga tem o tempo entre os dedos. soube-o no peito, invadido por sangue que sinto sólido por dentro do coração, por ar que sei raro por dentro dos pulmões. o último passo do dia sem regresso dei-o ao olhar uma folha que tombou do céu por entre ramos e troncos e desencontros. no instante tão demorado da sua queda perguntei-me se seria demasiado cedo para viver – o que quer que isso fosse por dentro da fenda que se abriu para sempre desde que a orfandade, se seria demasiado cedo para morrer sem saber o que é morrer – de quê e como –, ou o que é tarde ou cedo, sem perceber o que é o tempo – em que medida se conta –, ou a memória – que cicatriz permanece, sem como conjugar de cor o verbo morrer na primeira pessoa da vida, a sentir a dor ser sem fronteiras entre linhas e artérias, do território ou do corpo, tanto faz, estou de joelhos no chão a ceder ao silêncio, à memória da morte, sei-me a cair para cima ] O mapa não cabe no corpo. A mulher fechou o mapa, sabia não haver regresso. A dor não cabe no corpo, soube. Não sou eu. Somos eu. Diana Pimentel
Não sou eu. Somos eu.
O mapa não cabe no corpo, pensou. A mulher tentava o gesto preciso de dobrar a larga folha da página única do mapa no vinco exacto do papel como se pudesse regressar ao instante anterior ao território ter sido pela primeira vez olhado, aberto. A europa tremia-lhe nos dedos: linhas, cores, nomes, vazios. A mulher tremia na Europa: Funchal, Lisboa, Paris, Frankfurt, Estrasburgo, Berna, Basileia.
O torpor dos sons das línguas atingia-lhe a cabeça, trémula como as mãos. De todos os continentes quase só lhe tocava o eco surdo de vozes alheias, estrangeiras. A mulher procurava e perdia coordenadas, passos, palavras. Tinha a memória partida como partida era a europa do mapa. A dor é afásica.
Estradas, artérias; rios, veias; pontos, poros; países, membros; capitais, órgãos; nomes, alfabeto; quilómetros, tempo; oceanos, vazio: o território era o seu corpo em queda, a sucumbir ao peso do pé pesado da morte sobre o peito, entre dias a abater tarefas sem em nada atenuarem o tempo, sem regresso. A dor é daltónica.
[ o lápis, o mapa, o telefone, para saber ter, ou pelo menos ler, latitude, longitude, um qualquer ponto de gravidade em que pousar. o olhar tumultuado.
primeiro uma ponte, curvilínea em altura, sobre o jardim atravessado pela manhã. uma voz que ouço sem reconhecer interpõe-se entre o meu corpo e o céu ainda desacordado do dia. uma senhora antiga pronuncia sons que sei serem palavras mas não sei quais.
situamo-nos por fim na língua franca da dor – a senhora com voz de vento e gestos aéreos fala da velhice, do corpo exangue sob o peso do tempo, de partida. entendo-a, então. serena, sorri. mostra-me uma folha, pessoas desenhadas abraçam-se no papel colorido. fala-me da ressurreição de ___. e sorri, serena. atónita e muda, despedi-me com um aceno breve. reconheço a palavra mas não sei o que ela diz. soube-o nos joelhos, curvos como a plataforma da ponte; perdi altura, em queda que procura.
a seguir o eléctrico lento por dentro da cidade, nos carris como se em direcção a um futuro sempre depois de ___. pulsa, sinto-o nos pés, como se a circular por dentro de artérias, da cabeça ao coração.
dentro da carruagem o dia é claro, a luz em câmara lenta: uma silenciosa rapariga lê um livro alheia ao meu olhar, o dela pousado como as mãos na curva apenas entreaberta do livro, linha a linha, letra a letra, em direcção a ___. o futuro está parado, a rapariga tem o tempo entre os dedos. soube-o no peito, invadido por sangue que sinto sólido por dentro do coração, por ar que sei raro por dentro dos pulmões.
o último passo do dia sem regresso dei-o ao olhar uma folha que tombou do céu por entre ramos e troncos e desencontros. no instante tão demorado da sua queda perguntei-me se seria demasiado cedo para viver – o que quer que isso fosse por dentro da fenda que se abriu para sempre desde que a orfandade, se seria demasiado cedo para morrer sem saber o que é morrer – de quê e como –, ou o que é tarde ou cedo, sem perceber o que é o tempo – em que medida se conta –, ou a memória – que cicatriz permanece, sem como conjugar de cor o verbo morrer na primeira pessoa da vida, a sentir a dor ser sem fronteiras entre linhas e artérias, do território ou do corpo, tanto faz, estou de joelhos no chão a ceder ao silêncio, à memória da morte, sei-me a cair para cima ]
O mapa não cabe no corpo. A mulher fechou o mapa, sabia não haver regresso.
A dor não cabe no corpo, soube.
Não sou eu. Somos eu.
Diana Pimentel