Porque não esperaste até que o peso se tornasse insuportável?: - Então ele tomba por si E é tão pesado por ser assim tão puro. Vês?: talvez fosse este o teu mais próximo momento; talvez ele já compusesse em frente da tua porta quando tu a fechaste com violência. Oh esta pancada, como ela atravessa o universo, quando algures, da dura e cortante corrente de ar da impaciência, se fecha qualquer coisa que estava aberta.
Não conseguiste ler?, mas nós não ousamos ler através da dor e do longe.
Só vemos os poemas, que ainda, descendo por sobre o pendor do teu sentir, trazem as palavras que escolheste. Não, não as escolheste todas; muitas vezes um começo se te impunha como um todo, que tu repetias como uma mensagem. E parecia-te triste. Ah, se nunca a tivesse ouvido de ti. O teu anjo ressoa ainda e acentua as mesmas palavras do modo diferente, e eu irrompo em júbilo pela sua maneira de dizer, júbilo por ti: porque teu era isto: o amor de cada um caía do novo de ti, tinhas reconhecido a renúncia como prémio do ver e na morte o teu progresso. Era isto que era teu, estas três formas abertas. Olha aqui o modelo da primeira: Espaço em volta do teu sentir; e da segunda: tiro por ti o contemplar que nada cobiça, o contemplar do grande artista; e na terceira: que tu próprio quebraste cedo de mais, quando a primeira ração de alimento, tremente do ardor em brasa do coração, caiu nela -, estava dentro moldada uma morte, aprofundada por trabalho honrado, aquela morte própria que tanto precisa de nós porque a vivemos, e da qual nunca estamos mais próximos do que aqui.
Tudo isto eram teus haveres e amizade; muitas vezes o pressentiste; mas então assustou-te o oco daquelas formas, meteste a mão nelas e tiraste o vazio e lamentaste-te - Oh velha maldição dos poetas, que sempre se lamentam quando deviam dizer, que sempre julgam o próprio sentimento em vez de lhe darem forma; que ainda supõem que tudo neles é triste ou alegre o sabem e o podem lastimar ou celebrar num poema. Como os doentes, usam a língua cheios de melancolia para descreverem onde é que lhes dói, em vez de se transmudarem em palavras, duramente, como o canteiro duma catedral se transpõe com aferro para a equanimidade da pedra. Era isto a salvação. Se uma vez tivesses visto como o destino entra nos versos e não regressa, como neles se faz imagem e nada mais, do mesmo modo que um antepassado, que dentro da moldura, quando por vezes o contemplas, parece ser como tu e ao mesmo tempo diferente de ti -: terias persistido.
Mas isto é mesquinho, pensar o que não foi. E há uma certa aparência de censura no confronto, que não te atinge. O que acontece leva tal dianteira sobre o que supomos, que nunca o alcançamos e nunca chegamos a saber como foi realmente. Não te envergonhes, quando os mortos roçarem por ti, os outros mortos, os que resistiram até ao fim. ( Que quer dizer: fim? ) Troca com eles os teu olhares, tranquilos, como é costume, e não tenhas receio de que o nosso luto te sobrecarregue, de forma a dar-lhes nas vistas.
As grandes palavras dos tempos de outrora, em que o acontecer era ainda visível, não são para nós.
Quem fala de vitórias? Suportar é tudo.
Renata Camacho