Há um momento inesquecível na minha carreira profissional, a do encontro privilegiado com uma das personalidades mundiais mais marcantes da nossa era.

Apertei a mão de Nelson Mandela a 30 de Junho de 1999. Desse dia de encontro com a história, guardo na memória a serenidade de um homem sem mágoa, feliz pelo trabalho realizado e orgulhoso do seu povo. Guardo uma foto ao seu lado, que não consigo encontrar!, e talvez por isso, recordo como se fosse agora, a lição de vida em segundos, o sorriso de um homem grandioso, sem rancor pelo sofrimento imposto e a humildade contagiante de quem sabe receber.

Aquela boa disposição permitiu que nos confidenciasse estar “muito feliz”. Por poder finalmente descansar. Por ter confiança no seu sucessor, classificando Mbeki um líder capaz. Mas sobretudo, depois de viver anos de prisão, por sentir-se livre. “Sinto-me livre no verdadeiro sentido da palavra”, desabafou.

Nesse dia acordamos, mal dormidos, pelas quatro da manhã. Apanhamos um avião particular em Joanesburgo rumo a Umtata, em Durban, para estarmos menos de meia-hora na residência do líder histórico da ANC. Nesse dia, Alberto João Jardim, repetindo uma audiência mantida em Maio de 1991, e o comendador e presidente do Banif, Horácio Roque, foram agradecer a Mandela a transição pacífica na África do Sul e a disponibilidade contínua da comunidade madeirense para a consolidação da democracia e para o crescimento económico no País de acolhimento. Trocaram prendas. O ex-presidente sul-africano deu a Jardim, “figura pública de impacto”, a biografia oficial. O presidente do governo ofereceu uma toalha de jantar em bordado Madeira e um convite para uma visita à Região, infelizmente, nunca concretizada. Como jornalista recebi a paz que os grandes líderes transmitem quando só pensam na permanente libertação daqueles que lhe estão confiados.

Ricardo Miguel Oliveira