Este é o mês do Natal, aquele momento do ano que lembra família, alegria, festa e solidariedade. A verdade é que estamos num ano onde se para uns a alegria persiste, outros vão passá-lo com muita angústia e tristeza. O consumismo dos anos que já lá vão tornaram o Natal um momento de presentes e gastos excessivos, onde cada um se sentia quase obrigado a gastar, ainda que excessivamente, num ciclo vicioso como se cada Natal fosse a última oportunidade de brotar felicidade através de coisas adquiridas, quer para si quer para os outros.

Há muito que se sabia que esta atitude de desgaste global servia muitas das vezes para afagar tristezas e disfarçar vazios difíceis de suportar, essencialmente quando não se quer olhar para dentro, ou, pior ainda quando o que se vê parece insuportável de aceitar.

O Natal devia ser o que já foi em tempos idos e que acredito que ainda o seja para algumas pessoas e famílias. Um momento de partilha de afetos, sabores de vida e memórias que cada um transporta no seu baú de sempre.

Os melhores presentes são sempre os que saem do coração e se constroem na rede dos afetos, com a participação de todos os envolvidos, sejam família ou amigos.

Hoje a situação atual do país obriga a conter gastos e a reprimir desejos materiais, mas quanto aos afetos ninguém nos obriga a conter.

Desejo então a todos um natal consciente do seu real valor e significado.

Espero que a solidariedade de que tanto se fala, seja efetiva mais nos atos do que nas palavras. As famílias e as crianças com fome e frio, não precisam apenas de comida e de agasalhos resultado da contribuição social, que apesar de fundamental e séria, não é suficiente para aquecer a dor da miséria.

É preciso ir mais perto, abdicar do conforto que de certa forma nos tranquiliza e olhar à nossa volta. Há muita gente triste por aí, a precisar de carinho e conforto afetivo. Às vezes nem é preciso olhar para muito longe, basta olhar para o lado com olhos de ver e alma de sentir.

Um carinho, uma presença amiga, uma porta aberta a quem precisa. Carinhos em forma de presentes, embrulhados em pele humana. Tal e qual como os abraços. É isso mesmo, abraços.

Tantas crianças sozinhas, tantas famílias perdidas, tantas pessoas tristes e desesperadas. Como seria bom se nestes dias, que estão por aí a chegar, pudessem sentir o calor dos abraços e a presença de alguém com um sorriso tão brilhante como as luzinhas das árvores que decoram a nossa comunidade.

Uma comunidade aberta ao natal é uma comunidade aberta às pessoas.

Se cada um der um pouco de si e misturar a sua alegria à tristeza de outros o natal, assim como a vida, torna-se mais real.

Manuela Parente