Primeiro foram as inaceitáveis ausências de representantes do Governo Regional nas cerimónias de tomada de posse de alguns dos novos presidentes de Câmaras que fugiram ao PSD. Depois foi a ridícula decisão de retirar a gestão do Jardim de Santa Luzia à Câmara do Funchal. Seguiu-se o triste episódio de escarafunchar as contas da luz de casa alheia para executar dívidas. Pelo meio, apareceram umas encomendas no jornal do presidente do Governo a cobrar em semanas promessas assumidas para quatro anos. Tem sido assim este tempo novo da democracia na Madeira, onde alguma maioria ainda não se refez da azia. Mas o relacionamento frio e distante ganhou esta semana novos contornos. Perante as derrocadas no Porto da Cruz e no Santo da Serra, o relacionamento quase mudo que vinha marcando as primeiras semanas de alternância municipal experimenta uma nova fase. Será o tempo em que o boicote silencioso dá lugar a um afastamento manhoso. Só um presidente de governo que convive mal com quem pensa diferente é que se faz à estrada pela calada para dizer que visitou as zonas afectadas pelo mau tempo sem disso dar qualquer conhecimento às autoridades municipais. É evidente que os governantes, como qualquer cidadão, podem e devem circular por toda a Região sem que para isso tenham de pedir autorização. Mas é ainda mais evidente que um líder realmente preocupado com a população procura rodear-se dos autarcas, como fizeram outros governantes, sem olhar a partidos. Mas não, esse pequeno gesto democrático ainda não chegou cá. E então foi o presidente, tarde e mal, passear a algumas zonas afectadas e debitar números de despesas de coisas que não viu, que não sabe. Foi um presidente tão rigoroso e cuidadoso como nos velhos tempos, em que ia de adro em adro a perguntar às pessoas o que queriam para a localidade. Assim, como quem dá bilhetes para o Marítimo-Nacional de amanhã, esse presidente dava estradas, centros cívicos, pontes e túneis. E um buraco nas contas públicas. Habituado a viagens secretas por essa Europa fora - de lá regressado e provavelmente a dias de lá voltar - o presidente manteve-se fiel ao estilo e fez também uma visita secreta ao Porto da Cruz. Pode fazê-lo, é evidente que sim. Mas não deve. E já não tem idade para estas birras infantis. Imagine o Leitor o que faria o presidente do Governo se no 20 de Fevereiro, José Sócrates, Cavaco Silva ou dirigentes europeus andassem por aí à socapa? Seria uma gritaria, e com razão. A mesma razão que têm os autarcas de Machico e de Santa Cruz para lamentar o secretismo da visita governamental. Mas mais do que esta falta de sentido democrático, o que preocupa é a facilidade com que o presidente atira números para a reconstrução, que de tão baixos até parece que as obras estão em saldos. E não estão. Depois da visita e dos preços baixos, o Governo avançou com outros apoios à habitação e ajuda às pessoas. Parece mais disfarçado o amuo, mas, honestamente, temo que seja apenas um engodo. Como quem sabe que tem de pagar 100 e dá 30 para ver se cala o outro. Se for isso, se se confirmar que o dinheiro que o Governo avança não dá para ‘meia missa’, então estamos perante a confirmação de que o boicote vai dar lugar ao garrote.