Quando o Natal chega, há qualquer coisa inexplicável no ar. É um não sei quê inefável que exerce um estranho poder sobre nós, impelindo-nos para os afetos. Humaniza-nos e, por isso, verdade seja dita, torna-nos docemente piegas como se estivéssemos no meio de uma grande bebedeira, desinibidos e prontos a bradar aos quatro ventos aquilo que calamos o ano inteiro. Porque, no ano inteiro, apenas houve tempo para pensar na austeridade, no desemprego, na carga fiscal, no salário a encolher, na malfadada governação, na mesquinhice do vizinho, enfim, em tudo o que nos fez acreditar – e falo por mim – sermos os seres mais desafortunados do universo. O Natal, na verdade, faz-nos cair em nós e perceber que tudo isso – a austeridade, o desemprego, a carga fiscal, o ordenado, a governação e o vizinho – é nada quando comparado com o que de facto é importante, o que é verdadeiramente insubstituível e, portanto, razão da nossa existência: a família, seja ela de sangue, seja ela de coração. Penso muito nisto, não como quem pensa, mas como quem sente que pertence a um todo poderoso e coeso, cujas partes ocupam o lugar certo e desempenham a função que mais ninguém pode desempenhar. Um todo em que a máxima de que não há insubstituíveis cai por terra, porque, nesse todo, qualquer um é insubstituível. E quando constato esse facto o medo toma conta de mim por saber que a vida é efémera e que, da sua lei inexorável, é desígnio fatal morrer. Não se resiste, diz o poeta, ao deus atroz que os próprios filhos devora sempre. E temo que esse deus me roube, mais cedo ou mais tarde, o que de mais precioso tenho na vida. Como poderei eu um dia viver sem o ritual da preparação das hallacas que já na próxima semana juntará o todo em redor da mesa da cozinha dos meus pais? Sem a lasanha que, paciente e cuidadosamente, o meu pai confeciona no dia de Natal, desafiando todas as tradições? Sem os licores da minha mãe que nesta quadra aquecem a alma mais gélida? Sem os amuos e as gargalhadas da minha irmã? Sem os telefonemas do meu irmão que, mesmo longe, está tão presente entre nós? Sem as fotografias do meu sobrinho júnior que, nascido há meio ano, vejo crescer à distância sem que isso quebre o laço que já nos une? Sem a paciência dos meus sobrinhos adolescentes e a impaciência do meu filho, também adolescente, que, mesmo resmungando, tem provado ser o pilar que me sustenta? Sem as jantaradas natalícias com os amigos que, apesar de poucos, são também irmãos que têm testemunhado a minha história ao longo de quase três décadas? Sim, tenho medo de que a vida me troque as voltas, roubando-me a bendita pasmaceira confortável do Natal. Dir-me-ão que não é tempo de pensar nestas coisas, que a vida é feita do proveito que tiramos dos momentos, que o Natal é um período de alegrias e não de tristezas, mesmo que apenas evocadas em pensamento. E eu concordo, mas confesso que os últimos tempos me fizeram meditar muito sobre o que é de facto insubstituível. As mortes recentes e sucessivas de jovens e adultos, por suicídio, acidente e doença, deixaram-me perplexa e, sobretudo, triste, muito triste. Por eles e pelo todo de que faziam parte e que, agora, está irremediavelmente desfeito. Não há consolo perante tamanho desgosto. Nem a fé, essa bênção que bafeja tanta gente e que a mim me falta, mitiga a dor dessas perdas nos corações daqueles a quem a vida trocou as voltas antes de o fazer a mim. Só o tempo os ajudará, ainda que mal. Por isso, no momento em que escrevo esta crónica, desejo ardentemente que o tempo passe depressa nos corações daqueles que perderam parte de si. Solidarizo-me com eles sem poder sequer imaginar a imensidão da dor que os arrebata e mói. A vida, julgo eu, deveria ser diferente. Mas, infelizmente, não o é. Daí que, quando o Natal chegar à minha casa na próxima semana, vou vivê-lo feliz e ao máximo, saboreando cada minuto, pois sei que um dia ele, o Natal, não chegará mais. Porque o tal deus atroz se lembrou de me trocar as voltas, roubando-me o todo a que pertenço.

Eker Sommer