Manuel João Baptista Rosa Foi um período muito rico a nível pessoal e histórico. Cheguei a Cabinda pouco mais de um mês após a cessação dos combates com o MPLA, integrado num Batalhão ido depois do 25Abril, único elogiado por Pezarat Correia no seu livro sobre este período. No comando do sector e no meu quartel ainda se encontravam mais de uma dezena de urnas com militares por evacuar. Assisti ao (re)nascimento da FLEC que teve uma grande adesão do povo Cabinda que recusava a sua integração com Angola, fundamentada nos acordos de Chinfuma e Simulambuco realizados entre Portugal e Cabinda em 1815 nos quais este território era considerado nosso protectorado. Aliás, na nossa constituição, Cabinda já constou como território independente das outras colónias. Mas uma força conjunta MPLA/Exército Português acabou com o sonho tendo atacado a FLEC na sua sede, feito uma dezena de mortos e prendido o General Themudo Barata comandante do sector por suposto apoio a este movimento, tudo isto a mando do MFA e Rosa Coutinho. Como retaliação a FLEC atacou o nosso quartel no Massabi fazendo alguns reféns que são levados para o Congo. O Exército toma conta das instituições públicas, entre as quais a Câmara da cidade através de uma Comissão Administrativa, da qual faço parte como vogal. Participamos na tentativa utópica de formação de um exército angolano unificado designado por FI (Forças Integradas). Uma companhia independente vinda do “puto” (Portugal) infiltrada pelo SUV (que se opunha à ida de mais soldados para as colónias) exigiu o regresso imediato tendo sido necessárias forças especiais e Fiats para repôr a ordem. A FNLA e o MPLA disputam o controlo da cidade de Cabinda envolvendo-se em violentos combates (uso de armas pesadas) durante uns dois dias o que fez com que centenas de civis “retornados” se tenham refugiado no nosso quartel. Um alto quadro do MPLA afirmou na messe de oficiais que o MPLA tinha apenas 2.000 efectivos na totalidade do território aquando do 25/Abril. Nas minhas deslocações, em serviço, a Luanda soube da presença de cubanos vindos para apoiar o MPLA, assim como de muitos civis mortos (entre os quais um primo meu) e violações crimes cometidos pelos soldados dos movimentos. No meu quartel verificaram--se três mortos consequência do consumo de liamba com álcool (os responsáveis não são julgados – era tudo abafado) e soube pelo furriel enfermeiro de que onze militares regressavam infectados com sífilis consequência de relações sexuais com as nativas. Lá dizia-se com orgulho “Deus fez o branco e o preto e o português fez o mulato”.Rui Mingas, combatente do MPLA, canta para os militares portugueses a sua mais célebre canção “Monangambé” entre outras. No interior de Cabinda aonde me desloco em missões de reabastecimento constato as condições precárias dos nossos quartéis que mais pareciam barracas e assisto à confraternização entre os nossos militares e os do MPLA, prova irrefutável de que não são os povos que fazem as guerras mas apenas aqueles que pretendem acumular riqueza à custa dos outros.