Havia, afinal, uma razão plausível, justa e premente para enfiar os madeirenses numa dupla câmara ardente. O nosso Frederico II da Prússia mandou os seus quatro cavalos alados apertar o laço ao pescoço de 365 mil que se vêem a braços com uma crise galopante, a troco da manutenção das suas próprias benesses e das de meia dúzia de burgueses. Os salvadores da reforma de Jardim levaram o despotismo até aos limites da indecência.

Percebe-se agora a farsa daquele filme épico que os deputados do PSD-M criaram para convencer-nos que a votação a favor do OE2014 iria trazer-nos vantagens competitivas e contrapartidas determinantes para o desenvolvimento e para os interesses da Região. Atrás da cortina de fumo salvou-se apenas a reforma do grande chefe. Os deputados até poderiam ter uma mão cheia de boas razões, mas permitir na Madeira o que no país é proibido, ilegítimo, imoral e insustentável? É para isto que servem as especificidades regionais? Em que democracia uma mão vazia para todos, paga uma mão cheia para quase ninguém?

Insisto nisto porque considero uma imoralidade inqualificável, uma política hedionda e um crime social consentido: em nome da subsistência do Estado social e da sustentabilidade das finanças públicas, permitem-se cortes em salários de 600 euros mas proíbe-se que se toque na acumulação de salários e de pensões a titulares e cargos políticos que levam para casa mais de 10 mil euros pagos pelo mesmo Estado Social insolvente e pelas mesmas finanças públicas falidas? Corta-se no subsídio de desemprego e de doença das pessoas mas mantém-se a saúde financeira dos partidos que não vêem beliscado um cêntimo do ‘jackpot’ de 5,3 milhões de euros? Forçam os contribuintes a assumir as despesas do Estado, contraindo uma dívida até 2030 para cumprir com o Plano de Ajustamento Económico e Financeiro mas escondem o dinheiro das tranches que o Governo Regional está a receber da ‘troika’? O segredo foi tão alma do negócio como a dívida oculta deu corpo a um buraco de quase 2 mil milhões.

Quem faz negociações como esta, profana o interesse colectivo e adultera as especificidades insulares da Madeira. Na bagagem não traz ganhos na negociação mas um atestado de menoridade intelectual para oferecer aos madeirenses. E o epíteto “analfabetos invejosos” para quem ousar questionar que se subtraiam direitos consagrados a uma Região duplamente penalizada pela austeridade quando se mantém um direito excepcional esgotado e tão em vias de extinção quanto os dinossauros políticos que insistem em governar no despotismo do século XVIII, alheios à ostracização das gerações vindouras.