“Talvez Deus se tenha enganado: sobre o barro soprou a vida em vez de sonho”. Nuno Higino
Arte na capela mortuária A igreja de Marco de Canaveses, dedicada a Santa Maria em 1996, é uma das obras de referência da arquitetura de Siza Vieira. O pároco Nuno Higino Cunha, naquela altura, adaptou o átrio na cave, em frente à capela mortuária, como espaço de exposição de arte. Sempre que havia um velório ou funeral, os acompanhantes tinham, necessariamente, de contemplar as obras ali expostas por diversos artistas. Nuno Higino, entretanto, desistiu do sacerdócio, mas continua um eterno amante da arte, em especial da arquitetura e poesia. Entre os seus livros de poemas, destaco “Talvez Deus se tenha enganado”, editado em 2004.
Homenagem ao meu irmão Estava programada, para o passado dia 25 de outubro, no pólo de Quarteira da Biblioteca Municipal de Loulé, uma apresentação do meu livro “Deus me faça feliz”, contos de pescadores do Calhau da Lapa e Fajã dos Padres. Por ironia do destino, meu irmão António Gonçalves faleceu com AVC no dia anterior, 24 de outubro de 2013. Cheguei a ponderar dar sem efeito aquele evento, pois, o estado de espírito não era o ideal. No entanto, pensei na capela mortuária de Marco de Canavezes: A arte, seja ela qual for, pode ser, também, uma homenagem à morte.
Arte, a vida e a morte A arte é uma forma de expressão da vida e esta está intimamente associada à morte: Há vida porque há morte e só há morte porque há vida. Deste modo, a arte (pintura, fotografia, literatura, poesia, etc.) enquanto manifestação da vida, pode ser, também, uma reverência à morte. Por outro lado, a morte é o facto natural mais certo, mais objetivo, mais absoluto que existe face à terra. Ninguém tem certeza sobre o futuro. Mas, há um facto de que ninguém duvida: da morte. Nuno Higino, no livro acima citado, tem o seguinte poema: “Era a véspera da morte e nada sabia sobre a morte”. A vida, afinal, não é mais do que a véspera da morte. O facto de existir morte, não pode fazer parar a vida. Por tudo isto, a apresentação do livro “Deus me faça feliz”, no dia 25 de outubro de 2013, além do encontro de amigos e pessoas conhecidas, foi, principalmente, uma homenagem ao meu irmão, António do Rosário Rodrigues Gonçalves, falecido no dia anterior. Paz à sua alma! * Procurador da República TAF Loulé
A arte, enquanto manifestação da vida, pode ser, também, uma homenagem à morte (foto, funeral de António Gonçalves, a 26 de outubro 2013).
João Luís Gonçalves *