José Carvalho E assim foi. O tempo passou, treze anos num único local é o suficiente para a gente sentir que lá tínhamos o que queríamos, como se ao ficar e aos poucos no permanecer, conquistássemos lentamente o direito de que nos fosse devolvida a parte que nos fazia falta e, rapidamente, passamos a ter tudo em casa outra vez. Tantos anos é o tempo suficiente para chamarmos casa a uma terra que não nos viu nascer, é o tempo suficiente para nos acorrentar o corpo e a alma, para perderem-se algumas coisas, porque não é possível menos, para ganharem-se muitas outras irreversíveis, para não se poder esquecer antes de terminar de lembra-lo.… Subitamente, pois é, e ainda nem sequer partimos, e já sentimos saudades, sente-se saudades de ontem, sente-se saudades até do que terá acontecido de manhã cedo, sente-se saudades de há 5 minutos atrás. As saudades passam a ser muitas, e das pequenas coisas, que diariamente não ligávamos. É natural sentir saudades do que tivemos, do que vivemos, até porque, depois lá, de fora, é tão fácil não poder esquecer! Até porque estando longe não significa esquecer, porque esquecer passa a ser uma missão impossível na vontade contínua de querer lembrar. A vida encarrega-se de nos levar a novos locais, a novas terras, novas culturas e novas gentes. É preciso partir, mesmo se não se quer, mesmo que essa não tenha sido a nossa escolha. Mas jamais devemos ficar azedos ou recusar as oportunidades que se nos oferecem. Podemos estar noutro país, longe de tudo o que conhecemos, longe das pessoas que mais nos provocam saudades, longe da nossa casa que é sempre a nossa casa, longe do nosso país que é e será sempre o nosso país, mas jamais devemos apagar o fôlego, esquecer quem nos vem à lembrança, esquecer todos aqueles e os outros também, tanto faz, as mãos nunca vão vazias e o espaço dentro do peito também não. Partimos e o sentimento é de que fica tudo à nossa espera, tudo nesta terra oval onde o ponto de partida é o ponto de chegada, onde o começo tem início num fim onde nada acaba, onde somos bem-vindos a cada chegar, bem acolhidos ao permanecer e saudosamente recordados em cada partir.