Quando cheguei ao jornalismo, há 25 anos, Jardim era uma referência da política portuguesa. De Norte a Sul do país, num táxi em Lisboa, no mercado de Joanesburgo ou em Los Teques, dava gosto ouvir falar do presidente da Madeira. “Oxalá tivéssemos aqui um Alberto João!” era a frase comummente ouvida por todo o lado. Porque o presidente da Madeira estava mesmo muito à frente, a sua astúcia e habilidade políticas baralhavam todos os adversários. E rendiam obras para a Madeira. Eram os tempos em que nos faltava quase tudo. E quase tudo se conseguia em Lisboa, mas sobretudo dos fundos da então Comunidade Económica Europeia... Passaram-se os anos e aquela admiração foi regredindo. Em toda a gente. A toda a linha. Todos viram isso, menos ele. E foi assim que a habilidade política foi dando lugar à sobranceria, à arrogância, à falta de respeito. Ao seu lado, poucos se atreveram a chamá-lo à atenção. De pouco serviria, é verdade, mas sobretudo havia que explorar tudo o que aquela sombra ainda continuava a brotar. Por isso é que, de cada vez que anunciava a intenção de retirar-se, aparecia uma série de ‘parasitas’ a pedir que ficasse. Exactamente o que ele queria ouvir. E assim foi ficando. Por altura de 2004, aquando dos primeiros indícios de que havia que refrear ânimos e começar a ajustar a Madeira à realidade, Jardim ainda teve a lucidez de mandar fazer um estudo (PREMAR - Reorganização e Modernização da Administração da Região Autónoma da Madeira), cujos resultados sugeriam uma série de medidas que a ‘troika’ implementou seis ou sete anos depois. À força e à conta de um tal PAEF. Apesar de desaconselhado por alguns, naquela época meteu o PREMAR na gaveta e decidiu continuar a alimentar o lobby do betão. Deu no que deu. Foi a minha primeira grande desilusão em relação a um líder que, afinal, era comandado e não comandante. A desilusão seguinte, das grandes, ocorreu-me há poucos anos. Foi quando descobri que, juntando dois mais dois, pela avareza intrínseca ao seu modo de vida, Jardim era capaz das mais tresloucadas atitudes. Como é o caso desse finca-pé para acumular a reforma e o salário, a título excepcional, quando o Estado anda a esfolar os míseros salários e pensões de milhões de portugueses. Por isso, quando soube que a ‘prioridade’ do presidente dos madeirenses em relação ao Orçamento de Estado para 2014 era manter a acumulação do seu salário com a sua reforma, não fiquei mais desiludido. Não é possível ficar mais desiludido do que já estava.