A saga da pianista espanhola, acusada da poluição e agressão sonora que infligia sobre a sua pobre e indefesa vizinha enquanto estudava, teve o seu epílogo no dia a seguir da publicação no DN da primeira parte desta história no mês passado. Apesar de, afinal, a lei espanhola sempre não a enviava para a gaiola, por não ter tido antecedentes e a prossecução ter solicitado menos de dois anos de prisão (apenas vinte miseráveis meses), a paródia foi parada por um juiz com juízo, que, além de declarar que não havia provas e que a acusação se baseava em exageros e inimizades pessoais, afirmou que neste processo “disparava se aleatoriamente contra tudo o que se mexia”.
O tribunal ainda lamentou a duração do processo (6 anos) e lembrou que, se a pianista tivesse sido acusada pela tentativa de homicídio, teria sido solicitada uma pena inferior à original (sete anos). Umas 1905 páginas e 38 testemunhas em quatro dias de julgamento, eis o custo de um capricho (ou uma atitude doentia), para não falar sobre o objectivo malicioso de expor a família (os país também se viram acusados de auxiliar a filha) a ridicularização, humilhação e estigmatização sofridos no banco dos réus. A ver vamos se a denunciante, ou a procuradoria vão interpor um recurso perante o tribunal supremo!
Entretanto, no outro lado da Europa, recentemente levantou a poeira um outro caso que envolveu um pianista: Fazil Say, turco, foi condenado por blasfémia e ofensa contra o Islão, que terá cometido citando nos seus tweets o famoso poeta persa, Omar Khayyam, cujos versos em questão atacam a piedade hipócrita. Os dez meses de pena suspensa são, para muitos, sintomáticos de falta da liberdade de expressão na sociedade turca. Por coincidência, ou não, Say, que também é compositor, foi recentemente galardoado com um dos mais importantes prémios para compositores europeus, ECHO Special Jury Award, para uma obra sinfónica que constrói uma ponte musical entre o Oriente e o Ocidente. Disse Say: “Não cometi nenhum crime... Somos individuais modernos, e não um rebanho.”
Robert Andres