João Abel de Freitas A cadeira é um objecto muito interessante e útil ao homem; não dá leite como a vaca, mas tem um conjunto de características e funcionalidades que em determinados momentos e circunstâncias, pode concorrer para a nossa felicidade. Dito assim, podia ser o início de qualquer redacção sobre o objecto em questão. Nos últimos dias e na sequência de uma série de factos tenho dado uma maior atenção à cadeira, como elemento com as suas virtualidades, defeitos, necessidades, posturas, expectativas, simbologias, consequências, etc., que provocam toda uma série de dinâmicas ás quais não posso ficar indiferente.
Villas Boas o jovem treinador de sucesso no F.C.Porto, na sua “ cadeira de sonho “, que abandonou, voluntariamente, para se alcandorar ás cadeiras inglesas, primeiro do Chelsea e mais recentemente do Tottenham, foi apeado das duas, sem apelo nem agravo.
Recentemente, o novo Santo Padre, o já muito popular Papa Francisco, tem abandonado com uma frequência inusitada a “ cadeira de Pedro “, misturando-se com o seu rebanho e confundindo-se frequentemente com as suas ovelhas, o que começa a causar muita perplexidade nos meios mais tradicionais e formais.
Blatter o ente que superintende à FIFA, para conseguir exprimir em toda a sua plenitude a sua infeliz senilidade, teve de se levantar e dar cumprimento e dimensão ás suas patéticas mímicas, abandonando a sua cadeira.
Há algumas semanas, a minha neta que tem 3 anos, fez uma asneira e quando a repreendi, escondeu-se atrás de uma cadeira , totalmente aberta, questionando-me: - Avô estás me vendo? Claro, que lhe disse que não...
Na semana passada um sr. deputado, parece que é assim que se diz, sentou-se na cadeira, destinada ao sr. Presidente do Governo o que originou uma cena, infelizmente transmitida em directo e largamente difundida em termos nacionais e internacionais causando uma imagem degradante e triste da nossa Região, naqueles que não querendo analisar as razões dos intervenientes e a divisão das responsabilidades e culpabilidades, se limitam a nos considerar como seres menores, como se já não bastassem as dificuldades que estamos todos a passar.
Ora, mas temos sempre presente o elemento – cadeira – o que não deixa de ser curioso e relevante, especialmente neste último caso, senão vejamos:
Se um cidadão, num qualquer transporte público, não respeitar o letreiro “ prioridade para GRÁVIDAS E IDOSOS “, e abusivamente se sentar na cadeira destinada aos mesmos, deixando qualquer um dos citados em pé, receberá uma reprovação “ social “; mas caso queira protestar por qualquer situação, hipoteticamente na cadeira do motorista, as consequências serão outras e não apenas sociais, independentemente da razão e pertinência do protesto. Igualmente teremos consequências se um aluno ou aluna, por muita razão que tenha para protestar, decida simbolicamente, que seja, se sentar na cadeira do Professor.
Obviamente, que o problema não é da cadeira, nem sequer do legítimo direito de cada um de protestar, mas da questão do respeito que devemos uns aos outros, sejamos do Governo ou da oposição e da postura que assumimos quando e como nos sentamos nas diferentes cadeiras, que a vida nos proporciona para nos sentar e se sabemos ou não utilizar as ditas cujas, independentemente do modelo e da forma.
No último Domingo, sentado na minha cadeira, li uma entrevista do Sr. Deputado, que me dizem ser uma pessoa com formação sólida, ao DN, em que ao ser questionado se o seu protesto poderia contribuir para descredibilizar ainda mais a classe política, cito, respondeu que não, que tem tido muitas reacções positivas, que teve a sorte de a RTP-M estar a transmitir em directo e com várias câmaras; que aquilo foi o que se passou e que não deixa espaço para segundas interpretações e que é dever do Governo estar presente para ouvir os deputados.
A minha cadeira ser bastante robusta, os calos que a vida me deixou nas mãos e me ajudaram a agarrar à estrutura e a última frase e única que fez sentido, na minha mente perfeitamente atónita e estonteada com o calibre da narração impediram-me de largar a cadeira. Mas, deixaram-me a pensar na questão das cadeiras e naqueles que as ocupam, para supostamente, defenderem a democracia e o povo e até nos governarem. Sem abandonar a mesma, deixo aqui a síntese da minha reflexão:
Não conheço nenhum madeirense, fora da órbita dos partidos e da política que defenda e tenha orgulho no Parlamento Regional.
Estou convicto que a ser feito um referendo sobre o assunto, a larga maioria da população pouparia aos grandes defensores da democracia e do povo, tamanho sacrifício e prescindiria de bom grado desta Instituição no actual modelo e formato.
Para que não surjam dúvidas relativamente à minha cadeira, informo que tenho de há algum tempo a esta parte, sido muito aliciado pelo partido da Abstenção, mas de momento estou a aguardar as linhas programáticas dos Nulos e dos Brancos, para me poder decidir.