O mundo dobrou-se ontem para fazer a devida vénia e prestar a homenagem global a Madiba apesar de “o pai da Nova África do Sul” nem sempre ter sido compreendido por aqueles que hoje saúdam o legado do mestre da libertação. Mesmo enquanto Prémio Nobel da Paz, em 1993, houve sempre dedos que tresandavam a sangue humano putrefacto entranhado nas unhas que apontavam o dedo ao pacifista um dia teve a lucidez, qual pecado mortal, para perceber que o pacifismo jamais derrubaria um regime de segregação racial erguido do imperialismo armado e dominado por uma minoria branca colonizante. Mas, mesmo após a sua morte, Mandela consegue a proeza de juntar velhos inimigos em torno da sua eterna causa, como aquele histórico aperto de mão que ontem assistimos, entre Barack Obama e Raul Castro, cujos países estão de relações cortadas há mais de meio século.

De pouco vale estar agora a discutir as razões que levaram Cavaco Silva a votar contra (ou melhor, primeiro a favor e depois contra) a resolução que pedia a libertação incondicional de Nelson Mandela quando o líder do ANC estava preso pela rebelião contra a discriminação racial para tentar acabar com o apartheid e iniciar a construção de um Estado igualitário no continente improvável. A solidariedade e a posição de Portugal, ainda a ressentir-se das feridas do império ultramarino, ficaram bem evidentes aos olhos do mundo, até dos neoliberais Reagan e Thatcher, naquela Assembleia Geral das Nações Unidas de 1987. Porque mais do que palavras, são os actos que distinguem os verdadeiros líderes. As razões, saíram ontem como que um amargo de boca do chefe de Estado Português. Entre dentes serrados e suores frios a pingar da testa, respondeu por que permitiu que Mandela e outros presos políticos que lutavam contra o apartheid ficassem mais três anos em cativeiro, a somar a um quarto de século. Cavaco explicou que não apoiou a solidariedade internacional porque recusava o recurso à luta armada. “O que seria incendiar de guerras toda a áfrica Austral?”, desatou assim o nó da garganta. “Depois de termos conseguido subir a uma grande montanha, só descobrimos que existem ainda mais grandes montanhas para subir”, teria respondia Madiba. No dia 15, Cavaco vai lá estar a representar o nosso país nas cerimónias fúnebres de Nelson Mandela. Espero que traga imbuído um pouco do espírito de Madiba. Porque Portugal precisa.

Também por cá, ouvimos palavras de louvor ‘post mortem’ ao maior líder político que o continente mãe, que a “África Negra” porventura conheceu. Mas de serve dizer que “o mundo perdeu uma das suas personalidades mais fascinantes” se as personalidades que o mundo ainda não perdeu não nos fascinam? Se “ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros”, porque se rasga a liberdade de expressão e se asfixia a liberdade de imprensa? Se “uma boa cabeça e um bom coração são sempre uma combinação formidável”, porque se inventam inimigos para justificar os insucessos da cabeça os fracassos do coração? Se “a educação e o ensino são as mais poderosas armas para mudar o mundo” porque se cultiva o analfabetismo intelectual, a submissão e se faz crer que o mundo muda por obra do divino? Se “a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele” e “o homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista por cima do medo” porque se insiste em abafar os que são mais audazes e corajosos do que nós? Apenas num ponto o líder da Região Autónoma da Madeira se aproxima do da África do Sul: Mandela criou um partido para acabar com o apartheid, Jardim criou um apartheid para acabar com o partido. Fica a grande lição de "um dos maiores líderes morais e políticos dos nossos tempos": “Tudo parece impossível até que seja feito”.

P.S.: As imagens sobre os efeitos da agitação marítima na Madeira que nos iam chegando pelo dnoticias.pt ao longo do dia de ontem e até ao momento em que escrevo são absolutamente desoladoras e fazem-nos questionar sobre até que ponto estamos preparados para lidar com as adversidades das alterações climatéricas quando até as muralhas e os quebra-mares que durante décadas sustentaram os nossos portos de abrigo são vulgarizados por uma tempestade sem nome. Estaremos a utilizar as nossas faculdades e a gerir o território de forma adequada para minorar o impacto e o domínio das leis desta natureza mais avassaladora?