1. Será por certo para muitos uma celebração familiar preenchida de lugares vazios de filhos, não já como durante séculos, à distância de uma ou duas ribeiras facilmente transponíveis, mas dispersos por latitudes globais, navegantes da urgente sobrevivência, numa errância legitimada, talvez à mercê da ambição irracional e insana de uns quantos, para quem o Natal é só mais um negócio… Uma consoada de ausências, lamentava-se alguém nas redes sociais. A realidade relega para segundo plano a dimensão incomensurável dos afectos, dos laços familiares e da generosidade humana que o nosso imaginário construiu à volta da mítica Família obrigada a socorrer-se do mais humilde dos lugares para acolher o seu Filho, e onde radica muito do nosso imaginário de pobreza e riqueza, motes inspiradores dos valores universais de justiça e igualdade, molas da Declaração Universal dos Direitos Humanos que também agora se comemora. 2. A simples referência a direitos remete-nos, nesta época em que as desigualdades mais doem, para a crescente destruição dos muitos conquistados com tanto sacrifício e implica lembrar Nelson Mandela, lutador controverso, radical – chegou a ser considerado terrorista – pela liberdade e democracia, contra a discriminação, a desigualdade e o apartheid, agora de partida para a última etapa da sua “longa caminhada”, merecedor de muito mais do que hipócritas homenagens de Estado. Num tempo em que escasseiam os verdadeiros líderes, Nelson Mandela, pela sua postura pessoal coerente e íntegra, ajuda a manter a fé e a esperança na humanidade e torna possível citar o seu Shakespeare, leitura companheira de prisão, ”what a wonderful piece of work is a man” (que maravilha é o ser humano). Quem continua a eterna caminhada pelos direitos? 3. Chegado logo no princípio do Advento, presente amargo de S. Nicolau, o Orçamento de Estado para 2014, essa peça fundamental que determina o profano das nossas vidas, prenuncia nova consoada de dores – para os mesmos de sempre. Saber dos episódios dos seus bastidores ajuda a perceber os meandros de que se tecem as malhas das decisões do nosso descontentamento. Soube-se que quase estalou o verniz entre o grupo parlamentar do governo e o secretário de estado da administração pública, por via da sua majestática recusa de propostas daqueles deputados e consensualmente aceites pelo primeiro-ministro, sobre questões específicas das polícias. Mais uma prova dos muitos gabinetes incomunicáveis e pequeninos poderes de eminências pardas, de que se constituem os nossos órgãos de soberania. (Nada que espante quem também já andou de Anás para Caifás, por corredores e gabinetes, assessores e adjuntos a tentar saber para quando a prometida e eleitoral construção de voláteis esquadras de polícia, ou da abertura de outros equipamentos, tudo pendente de escolhas políticas entre gabinetes estanques…). Soube-se também que das muitas – trezentas e tal? – propostas de alteração ao Orçamento, só sete terão sido aceites; uma delas terá permitido a continuidade da “especificidade” da acumulação da reforma e salário por responsáveis políticos regionais, enquanto a generalidade dos cidadãos terá mais cortes em pensões, reformas, subsídios e salários. 4. Como perversa “prenda” antecipada da consoada, quer o Ministro Crato obrigar os professores contratados, - agora os que têm menos de cinco anos de serviço - (oxalá os tribunais se pronunciem!) a fazer uma inútil prova de conhecimentos. A este respeito, a memória leva-me a quatro décadas atrás, ao tempo da democratização do ensino, ao boom da escola democrática iniciada antes de Abril de 74, quando o país se confrontou com uma imensa carência de professores qualificados e teve de socorrer-se de “agentes de ensino” sem preparação específica para esta tarefa. Foram centenas, milhares de docentes sem preparação para ensinar, que contaram apenas com os modelos de professores no seu imaginário e com os colegas mais velhos, âncoras preciosas onde aportar a insegurança, as dúvidas, a ignorância e o medo. Sei do que falo, pois esses foram os meus primeiros passos neste ofício. Talvez então fizesse sentido uma tal prova… Não agora quando temos a geração docente mais qualificada de sempre, qualificados e profissionalizados com licenciaturas, mestrados, pós-graduações, especializações, doutoramentos, por instituições dependentes e acreditadas pelo Ministério da Educação – as universidades e os orientadores pedagógicos. Eles já são avaliados nas escolas e dão provas de indiscutível competência científica, pedagógica e humana. Têm sido injusta e ilegalmente mantidos indefinidamente na vulnerável situação de contratados, quando já deveriam estar integrados na carreira. Esta absurda prova que apenas pretende despedir professores, reduzir o número de candidatos a concurso, - e distrair as atenções das medidas atentatórias da qualidade da Escola Pública, o cheque ensino e o financiamento do ensino privado - é mais uma violenta humilhação. A mesma violência que pretende vulnerabilizar, domar, controlar, instilar o medo na sociedade e nos mais jovens em particular. E dela falam personalidades insuspeitas: entre muitos, Mário Soares, Eduardo Galeano e o Papa Francisco.

Júlia Caré