Depois do “atletismo” de manutenção que costumo fazer todos os serões, passo junto à esquadra da polícia no Campo da Barca, a caminho de casa. Vejo sempre dezenas de pessoas à espera de uma refeição, oferecida não sei por quem, mas que chega todas as noites, creio que sem falha. Tem semelhanças com a fila que se faz na rua do Frigorífico, ao almoço, estes diferem pelo fato de não terem um abrigo caso chova, comem ali mesmo, em pé. Será que não se poderia arranjar uma solução em que as pessoas pudessem estar mais confortáveis e sem condicionamentos devido ao mau tempo? As mesmas instalações que servem para o almoço não poderiam servir para o jantar? Ou outras quaisquer, desde que não seja à mercê do vento e da chuva. Penso que os beneficiados agradeceriam, hoje por eles, amanhã por mim. Aliás, há coisas que não se compreendem nesta vida, nem noutra qualquer. Se existem pessoas com carência e que não podem, de forma alguma, obter sustento, a sociedade tem de fazer com que essa gente não passe fome. Ao menos isso. Quem diz a sociedade, diz Estado. A ele compete providenciar o essencial para um ser humano. Se o faz para os animais, com instalações que os acolhem e alimentam, igual comportamento deverá ter com o nosso semelhante. E se é preciso que se retirem verbas disto ou daquilo para conseguir satisfazer a fome de alguns, então não tem lógica nenhuma que existam pessoas a acumular salários e reformas, gozando de uma exceção estúpida de uma lei nacional. Justifiquem como quiserem, não tem justificação. É como todos apoiarmos as iniciativas do Banco Contra a Fome sacrificando parte da nossa “despensa”, enquanto os partidos políticos beneficiam de uma tremenda taluda pra brincarem ao tachos e jantaradas na compra de votos. Há coisas que o cidadão comum nunca irá entender, é mesmo difícil perceber como é que com menos de 50 euros, por exemplo, se consegue salvar uma criança de morrer à fome e há tanta gente que é capaz de gastar isso num almoço de 15 minutos ou, até em menos tempo, num copo a altas horas da noite. Alguém tem culpa de outro passar fome. No mínimo, se come dois pães é porque um só chegaria. Mas quase ninguém pensa nisso. Nesta altura em que se realizam os convívios de Natal, onde se reúnem os trabalhadores de uma empresa que se encontram quase todos os dias, gastam-se centenas e milhares de euros em almoços e jantares bem regados, enquanto há quem faça fila à procura de caridade. Em lugar disso e em vez de trocarmos prendas que não significam nada porque são apenas uma convenção da quadra, tentemos dar uma volta ao texto e façamos algo que até nos surpreenda. Ajudemos alguém a sério, sem pensar nos vadios que recebem rendimentos de inserção e não merecem ou nos que nada fazem à espera do que os outros dão. Vamos passar o Natal a fazer o que não fizemos durante o ano. Vamos ajudar mais os outros para que eles nos façam sentir que há gente que gosta de nós. Mesmo que seja “só” porque nós ajudamos. É gratificante, pode ser viciante. Bom Natal.

Paulo Gomes