Todos nós conhecemos o dito popular que nos diz que, muitas vezes, “as aparências iludem”. Trata-se, sem dúvida, de um eco dos sábios antigos quando convidam a ultrapassar o mundo das aparências, a penetrar no sentido mais profundo das coisas e a refletir sobre os alicerces das nossas decisões e ações.
Este convite a não ficarmos pela superfície, quando analisamos as situações, vem mesmo a calhar, a fim de melhor compreendermos certas atuações e comportamentos com que muitos, neste período particularmente exigente e difícil, nos têm brindado recentemente, quer ao nível das relações pessoais quer ao nível do exercício público. Muitos tentam passar por aquilo que não são. Parecem ser corajosos, mas são cobardes. Parecem ser frontais, mas atacam pelas costas. Parecem defender certos princípios eticamente válidos, mas vendem-se com facilidade aos inimigos desses mesmos princípios. Fazem parcerias com uns num determinado sítio, mas noutro local lançam-se contra esses mesmos parceiros. Até ousam, em algumas circunstâncias, atacar os seus adversários dentro das suas próprias muralhas, ao estilo da história do cavalo de Tróia. O tal que parecia ser cavalo mas não era cavalo. Que parecia ser coisa boa, mas não era. Afinal, quem é corajoso e quem é cobarde?
Voltando a olhar para os sábios antigos, percebemos que, para os gregos, a coragem era a força da alma face ao perigo; a capacidade de ultrapassar as dificuldades, mantendo a coerência com princípios, projetos e valores próprios; o grito de revolta, quando a simples indignação se torna ineficaz.
Porém, os gregos, na sua sabedoria, vão ainda mais longe e apresentam a coragem como uma ponte que assenta em duas margens (cobardia e temeridade) com as quais não pode ser nunca confundida. Isto é, o corajoso não se pode confundir com o cobarde ou com o temerário.
Do mesmo modo, os romanos afirmam que a coragem tem origem no coração (a própria raiz da palavra coragem –cor, coração- é bastante elucidativa), o corajoso é aquele que vive as situações “com o coração”, pois só o coração está disposto a correr riscos, ao contrário da mente que está sempre a fazer cálculos.
De acordo com esta sabedoria antiga, fica claro que aqueles que tomam as atitudes atrás referidas não satisfazem os critérios da coragem. Na verdade, na maior parte dos casos, após as suas ações -que consistem, muitas vezes no lançar as suas farpas e os seus “gritos de guerra”- afastam-se rapidamente do “local do crime”, fogem pela calada da noite, deixando os seus partidários a falar sozinhos. Procedem exatamente como costumam proceder os cobardes. Interessam-se apenas por si e pelos seus interesses.
Bem diferente é a situação daqueles que, ao longo do tempo, satisfazem plenamente os critérios da coragem. Ou seja, aqueles que permanecem sempre ao lado dos valores que defendem e realizam a dignidade da pessoa, tanto nos momentos de vitória como nos momentos de dificuldade.
Mantêm-se coerentes com os princípios e valores que alicerçam a sua identidade, mesmo sabendo que, em algumas ocasiões, isso poderá custar-lhes incómodos e sacrifícios acrescidos. Procedem exatamente como costumam proceder os corajosos. Colocam os princípios e os valores em primeiro lugar, à frente dos seus próprios interesses.
Assim, importa reconhecer e valorizar aqueles (e ainda são muitos) que são capazes, não só de enfrentar as futilidades, mas também de lutar contra os abusos graves que espezinham a liberdade, a autonomia, a honra e a dignidade da pessoa. Aqueles que não se deixam vender por um mísero prato de lentilhas. Mas são igualmente corajosos aqueles que na discrição e no silêncio, mantêm uma coerência de vida, procuram ultrapassar as dificuldades e ajudar outros a fazê-lo. Estes são os rostos da coragem. E eles estão por aí.
Marco Gomes