Desculpai-me por estas linhas intimistas, mas neste início de Dezembro, apeteceu-me retornar ao idílico tempo da minha infância e escrever ao Pai Natal, que já nem afaga aquelas três, em cada dez crianças portuguesas em risco de pobreza. O advento natalício parece assim o contínuo suplício, despido de exaltação festiva. Antes da feliz despedida dos Magos da troika, já antes nos despediremos deste país irreconhecível numa gruta sepulcral, com burro, vaca e manjedoira penhorados.
Observo o agonizante regime insular, ofuscado na autofágica carnificina, como um ser demente que se mortifica entre espasmos e golfadas de maldade, num derradeiro rito exorcista em que se contorce, afogado pelo fel que destila. Uma gambiarra fundida de “bendita dívida” que verte escuridão, soando a uma corrente em arrasto.
Pensei escrever-lhe uma carta, mas com a privatização dos correios e a moda das novas tecnologias, enviei um “tweet” à Lapónia, que pelo inócuo assunto, certamente não despertará o apetite da “secreta” americana que parodia a privacidade de todos nós.
Quis primeiro agradecer-lhe os ares de mudança que se sentem na Madeira que, apesar de muito ramo enfeitado de espiguilha chinesa colorida, não se nota porém, o característico odor da fresca verdura natalícia, pelo que aguardo com expectativa, uma higiénica aragem no novo ano. Sei que se limpam “confétis” enegrecidos pelo tempo, como marcas dum falso esplendor vivido. Que se encontram despojos de carcaças em cavernosos armários que o Santo Amaro do vindouro mês de 2014, já sinalizou para varredela imediata.
Espero que o velhote de vermelho não nos conceda apenas, uma transitória fé licorosa das madrugadoras Missas do Parto, ou aqueles fugazes arrebates da causa animal, para horas depois segurarmos a pata do porco na sua matança.
Donato Macedo