Era Antígona a guiar-me pelo labirinto dos corredores, onde havia vasos vazios e de choro antes de cada porta de empurrar. Antígona primeira de olhos tão suaves, vestida de esperança escultural… Às vezes lembro-me. Custa. Tudo fica longe. Onde estás que há dez dias não sei de ti? Nada. Imagino-te contra a chama verde da serra, os teus olhos vazios, todos brancos, criatura lunar em pleno dia, a boca arqueada e trémula como no amor. Abres os braços, como asas, menina cisne, sobre a fronte manuelina. Quem te soletrar, ou sonhar, pela caligrafia do teu sorriso desconhece a dor desse cérebro que se rasga, que eu próprio tão pouco, tão mal adivinho. Procuro-te entre o sonho e a derrocada. Nem sei se é pela ternura que te quero ou pela surpresa do teu ser. Esta distância sem sinais, dar-te-ás conta?, remove as palavras que dissemos. Estar-se-á esfarelando ( tenho medo ) a tua remota vontade de viver? Nunca hás-de medir a minha angústia quando receio que possas resvalar outra vez para a desistência ou para o delírio. Não. Não podes ! Se o meu afecto tivesse horas para te amparar! Acredita ao menos se ouço as tuas visões, amor de outra galáxia, tesouro querido, reflexo, se ainda existes, do ritmo perdido das metamorfoses. Não sei se é de ti que às vezes tenho saudades, talvez só do ar lavado para onde me levavas, ou das palavras confundidas que trocámos. O céu está a baixar, as estrelas ficam mais perto, como capelas duma ilha perdida. Quando foi? As palavras na tua boca soavam a tempo ou a sonho, a adormecermos em coral e marfim. A terra bate surdamente, como um coração de aviso. De noite, o canto dos grilos ondeia, o chão respira. Sim, a noite ainda existe, aqui, entre os sobreiros e as oliveiras. Acontecia a solidão estilhaçar-se, por momentos. Eu imaginava em rebentar por completo as algemas do isolamento, em perder-me de mim ( do fim, do limite, do limiar ) em perdurar. Será que o céu também se partilha?, ao menos aqui…Aqui sou pedra, torrão e folha, vime, cordel, cabaz, gota de sangue e tinta de escrever-te. Talvez não compreendas que te admiro: não acreditas em ti. Ou melhor , vives quase sempre em sonho. Ou no escuro dos teus abismos, onde por vezes lamento não conseguir descer. Sonhas. O sonho em ti antecede a experiência. Mas são quase sempre sonhos negros. E, contudo, é esse o caminho que te leva à palavra poética, à fogueira primitiva. Talvez todos os seres humanos, mais ou menos iludidos, felizes ou infelizes, como se dizem, sejam assim: paralelas que, obviamente, nunca se encontram, mesmo que tendem fundir-se uns nos outros, com as palavras ou com os silêncios. Aqui me tens, longe e perto, como afinal quando estávamos juntos. Creio que te desconcerto. Não admira: eu também respiro incerteza, instabilidade, só os heróis e os parvos se sentem seguros de si - e os heróis nem sempre. Mas a estabilidade - o que se convencionou chamar estabilidade - não é essencial à minha vida autêntica…não ligues…

Falo-te, olhando para o tecto, com a vontade de um beijo. Quero-te, mas não posso ter-te. Receio fazer-te mal ( este meu cérebro a dissolver-se ), acorrentado como estou a horas sórdidas, a este desespero. Mesmo assim, dava tudo para te falar. Agora. Sentia-te presente em tudo, como a seiva nas árvores, como a aragem que nos toca ( vida?, morte?, um frio estranho em meio daquela grande calma), está a chegar aquela hora de que mais gostávamos, quando se tornam azuladas as oliveiras e o solo se suaviza com o alongar das sombras. O tempo passa. Ouço-te, é como se tivesse gravado a tua voz: «Um dia, uma noite, uma noite qualquer, aconteça ou não, hei-de pedir-te que me deixes de amar-te como eu sei. » Sentes-te vítima e não o confessas. Mas é necessário dizer tudo. Até para perceberes que eu não tenho nada a ver com o mundo da pressa, da fuga e do desprezo, com isso tudo te magoa e te reduz ao silêncio, ao teu submerso silêncio, ao teu submerso silêncio humilhado, antecâmara da grande cisterna onde, à flor de água, ondulam as cinzas loucas por que chamas.

As muralhas do teu silêncio, o espaço nocturno, o fosso: não chego sequer ao cais arquejante onde seria talvez possível localizar-te. Não sei se este ruído que me envolve e tanto me cansa não fará parte de mim. Cola-se-me à pele, lentamente, vai-me aniquilando. Ponho-me à escuta, quero descobrir o que por baixo - ou no mais fundo desse ruído - se perdeu de mim, o que permanece, que depósito se vai acumulando e se transmudou. Os medicamentos lançam-me numa apatia atroz, sob a qual, no entanto, me sinto em vida, mas a uma remota profundidade. E tenho medo, meu grande amor (é a primeira vez que assim te chamo ) de não voltar já à superfície.

Talvez me salve juntando pequeninas coisas: em vez de voltar a reconstruir a boneca de trapos do país da infância, vou tentar, paciente e docemente, viver este Outono, como me ensinaste, na companhia da luz que há na chuva, dos silêncios da natureza ou do acaso, das folhas que adormecem e ensaiam, talvez como nós, esse rumo sempre breve e sempre longo de partir.

Renata Camacho