Pomos uma palavra onde começa a nossa ignorância, onde não podemos ver mais longe; por exemplo, a palavra « eu », a palavra « fazer», a palavra « sofrer » -- talvez sejam o horizonte do nosso conhecimento, mas não são « verdade ».

Não sou capaz de dizer quando foi ao certo que me transformei em outro. Quero eu dizer: quando foi que comecei a pensar em mim como sendo outro e já não sendo eu próprio. Talvez seja impossível isolar um instante preciso em que tomei a decisão. Não passaremos, todos os dias, em inumeráveis ocasiões, de um eu para os outros, sem que sequer nos dêmos conta do facto? A questão que me interessa é tanto a do quando como a do porquê. Analisei a fundo o problema deste embuste insensato. Tornei-me um virtuoso da mentira, aprendi a fazer soar tão delicadamente o meu instrumento que ninguém poderia duvidar da autenticidade da sua música. Que notas brilhantes introduzi, que cadências! Mentia acerca de todas as coisas, até mesmo quando não era necessário, até mesmo quando a simples verdade seria mais eficaz na salvaguarda da minha versão. Inventei pormenores da minha vida inventada com um crepúsculo e uma imaginação obsessivas, construindo um álibi indestrutível para um caso que não era verosímil que qualquer tribunal fosse chamado a julgar. Todavia, continuava a sentir-me fascinado pelo paradoxo que fazia com que me fosse absolutamente indiferente, ao mesmo tempo que trabalhava na construção da minha fachada, ver alguém aparecer de repente apresentando uma prova irrefutável da minha impostura. Ter-lhe-ia rido na cara e admitindo a verdade com um encolher de ombros. Pergunto uma vez mais o que já perguntei: em que me terá beneficiado assumir a identidade dele? Não era, simplesmente, tanto que eu quisesse ser ele - ainda que, sim, o quisesse ser ele -, porque o que queria, acima de tudo era deixar de ser eu. Quer dizer, desejava fugir da minha própria individualidade, à minha ecceidade própria, e não à presença do meu mundo, ao mundo que sentia perdido. Parece-me que este aspecto foi de grande importância. E contudo vivi como sendo ele por tanto tempo que dificilmente sou capaz de me lembrar o que era viver sendo aquele que fui outrora…Interrogo-me incertamente, extravio-me neste momento de pronomes pessoais, impessoais, impessoalizantes. Nunca quis perpetuar a sua memória, ou viver por ele a sua vida que foi impedido de viver; não, nada disso, nunca teria sido tão leal. Tê-lo-ia defendido, sim, teria tentado proteger o seu nome, mas, se tivesse sido descoberto, ter-me-ia despido dele com a mesma facilidade com que um agente secreto se desfaz da sua identidade empréstimo e se insinua numa outra. Tantas interrogações, tantas particularizações, e nem por isso avancei grande coisa. O mistério permanece, como sempre: porquê? Se, como creio, como reitero, não há si-próprio singular essencial, a que se deve considerar exactamente que fugi, pretendendo ser outro? A nada mais que um ente, essa insuportável rapsódia de afectos, desejos, medos, tiques, trejeitos? Ser uma pessoa é ser uma coisa, e uma coisa só. Estou a pensar num actor da Antiguidade. Trata-se de um veterano do teatro ático, um comparsa, um tarimbeiro da sociedade dos actores. O público conhece-o, mas não fixa o seu nome.

Nunca é Édipo, mas já fez o papel de Creonte. Tem a sua máscara, tem-na há anos; é o seu talismã. A argila branca que foi moldada ganhou uma tonalidade e uma textura ósseas. O seu interior de pano grosseiro foi sendo afeiçoado por anos de suor e fricção, e passou a ajustar-se confortavelmente aos contornos do seu rosto. A verdade é que, cada vez mais, ele pensa que a máscara se parece mais com o seu rosto com o seu próprio rosto. No fim de cada representação, quando a retira, pergunta-se se os outros autores o verão sequer, ou se ele não será apenas uma cabeça com a fronte lisa, à semelhança da velha estátua de Sileno, na praça do mercado, cujas feições o tempo apagou por completo. Começa a usar a máscara em casa, quando não há ninguém. Sente que isso o reconforta e o sustenta; sente que é um repouso maravilhoso, que é como estar a dormir e contudo, ao mesmo tempo, consciente. Depois, um dia, aparece à mesa com a máscara posta. A mulher não faz comentários, os filhos fitam-no por um instante e, a seguir, encolhem os ombros e voltam ao seu bulício costumado. Consumou a sua apoteose. O homem e a máscara são um só.

Renata Camacho