Não sei de que vão falar esta manhã os dirigentes do PSD-Madeira que participam no Conselho Regional. Não sei mas acredito que muitos terão vontade de se levantar e dizer a Jardim: acabe com esta aflição. Acabe com a brincadeira, olhe que está a destruir tudo o que bom já fez pela Madeira. Isto e muito mais vai, de certeza, na cabeça de muito social-democrata que ainda não perdeu o tino. Mas isto e muito mais ficará por dizer por uma razão muito simples: seja por respeito, pena, ou mero oportunismo interesseiro, a verdade é que poucos terão a coragem suficiente para chamar Jardim à razão. Atrevo-me mesmo a dizer que ninguém terá essa ousadia. Porque sabem que ao esboçar a menor crítica, o mais leve reparo, até a mais acertada e pertinente observação será pôr-se a jeito para um enxovalhanço público e acusações ridículas de que quem crítica o único importante está feito com Albuquerque ou com qualquer outro adversário interno. Perante este cenário, destacados militantes do PSD trocam a coragem pela misericórdia e fazem o que se faz perante o bêbado que dança sozinho no arraial ou a criança que berra no supermercado: deixam-no para ali a fazer figuras tristes. Ah, não queres ajuda? Então desenrasca-te! No meio deste filme de loucos, nem Jardim se apercebe da figura deprimente que faz. E muito menos nota que é apoiado apenas por aqueles que, na ânsia de demonstrar o seu servilismo primário, tanto lhe estendem o passadeira vermelha à saída do carro preto, como lhe deixam a porta escancarada para o abismo. Neste triste arrastar de pés até ao último degrau, o presidente deita mão de qualquer trunfo. Vale tudo. Ameaças, vinganças, mentiras. Certamente tem como certo que assim ainda mete medo. Puro engano. Se fosse mais humilde, se ouvisse ao menos os seus, já teria percebido que não, que esse tempo já passou. Ou melhor, que já passou o seu tempo, ponto final. Mas não. Teimoso, Jardim parece aquele velho que prefere cair a pedir ajuda para descer o degrau. E até ofende quem o quer ajudar. Esta última semana então, foi um calvário para qualquer social-democrata que se preze. É que não bastou aquela safadeza de por a Empresa de Electricidade a vasculhar as contas das câmaras como ainda teve o desplante de mandar executar dívidas com as quais nunca se preocupou quando eram social-democratas os presidentes das Câmaras que agora fugiram ao domínio do PSD. E, pior do que isso, quando se soube da trapaça, a resposta foi delirante: é mentira, é falso, é uma canalhice, escreveu alguém da Quinta Vigia. E quando se mostrou prova de que a mentira, afinal, era verdade, a total falta de vergonha voltou a falar mais alto. E alguém na Quinta Vigia, reconhecendo que o que dissera ser mentira era afinal verdade, dizia também que havia trafulhice. E havia, de facto. Da parte da Quinta Vigia. Se não fosse triste, este episódio até teria alguma piada. Mas é triste porque mostra como uma instituição que se apresenta como pessoa de bem é capaz de truques de semântica que apenas convencem os distraídos. No meu tempo de catequese, dizia-se que isto era pecado. E que dava umas quantas Avé-Marias de joelhos junto ao altar. Agora, nem a caridade cristã exige penitência. É o deixa andar, a indiferença, como se faz com o tal bêbado que dança sozinho no arraial. Este triste fim faz-me lembrar o que dizia Jardim quando ainda mostrava ter alguma clarividência e anunciava que um dia, quando saísse do Governo, seria o fantasma do seu sucessor. Os anos passaram, Jardim não saiu, há vários candidatos a sucessor e há um fantasma. Jardim é hoje o fantasmo-vivo de si próprio. Deambula por aí e ao esvoaçar vai deixando cair tudo o que construiu. Sinceramente, tenho pena. Nem Jardim merecia um fim assim.
A vingança, a mentira e o fantasma
Onde se lê que nem Jardim merecia um fim assim