Se a política é o esforço de transformar a fatalidade em responsabilidade, os acontecimentos dos últimos dias dão-nos uma noção objectiva do que nos espera como algo inevitável. Na passada semana, a SEDES, uma das mais antigas associações cívicas portuguesas, da qual me orgulho ser membro desde de 1973, tomou uma posição muito crítica sobre as políticas seguidas pelo executivo de Pedro Passos Coelho, num documento em que aborda a situação económica e social “dramática” dos dias que correm, a que se junta, segundo a SEDES, a “incerteza” a minar a confiança dos portugueses. “Ninguém confia em quase nada que seja prometido pelo Governo: isto é incompatível com uma saudável vivência democrática”, diz a referida associação. Ao ler estas palavras vem à minha memória uma célebre frase de Eça de Queirós que nos dizia: “A política é a ocupação dos ociosos, a ciência dos ignorantes e a riqueza dos pobres”. Sendo a política a mais absorvente, a mais caprichosa e a mais dominadora de todas as mulheres, nas suas mãos os homens – os políticos, muitas vezes se assemelham a fantoches. É ela que os inventa, que os veste, que os move, que lhes comunica uma auréola de vida, que lhes dá um fictício clarão de imortalidade e que – la donna è mobile – os atira depois para um canto, como destroços sem interesse. Eça de Queirós, com uma extraordinária percepção da realidade que o caracterizava, nunca se deixou convencer pela política – nem iludir pelos políticos. Decerto pensava da política o que escreveu um dia acerca do Estado: “Infelizmente entre tantos órgãos de que o Estado está provido, não há nenhum que tenha a forma, mesmo vaga, dum coração humano”. Voltemos ao documento da SEDES que nos recorda que “erros de comunicação erráticos e decisões fora do tempo” abrem caminho a uma “incerteza absolutamente desnecessária e a um ambiente de desconfiança” em relação ao Estado de Direito. Incerteza e desconfiança, na perspectiva dos responsáveis da associação cívica, “incompatíveis com a recuperação da economia, do investimento e do emprego”. Todas as semanas “escutamos anúncios de medidas que abrem novas frentes e criam medo e incerteza”. A SEDES dá, como exemplo, a questão das pensões de sobrevivência. “Sem discutir se a política em causa é boa ou má, contesta-se sim, a essência das decisões, a confusão dos conceitos, a impreparação das soluções, a intermitência dos anúncios, a contradição dos agentes”. Ignora o Governo que a recuperação do investimento só é possível com políticas estáveis e previsíveis”. Neste momento, o problema não é a falta de financiamento ou de incentivos, mas de credibilidade e estabilidade da política e dos políticos. Voltemos a Eça e talvez possamos melhor compreender estes “figurões” que nos governam: se, mais do que uma vez, a política utiliza os loucos, - com frequência utiliza os medíocres, erguendo-os, inexplicavelmente, a situações dominantes. Com Eça, e lendo a sua obra, fica-se com a sensação que o mais nobre dos políticos é aquele que sabe vencer a própria política. Alguns exemplos existem, na minha opinião, na nossa história democrática: Francisco Sá Carneiro, Carlos Mota Pinto e Mário Soares. Estes homens ensinaram-me que a política é uma combinação singular de visão e paixão, de perspectiva e determinação, pela qual não deixamos de perceber a realidade como ela é, mas, ao mesmo tempo, nos projectamos mais além do meramente dado; é consciência dos limites e vontade de os superar. A política sem visão perde-se na azáfama quotidiana e acabamos por chegar onde realmente não queríamos; mas se lhe faltar paixão, a política mostra-se incapaz de fazer frente à fatal resistência dos factos, acomoda-se-lhes fatalmente, sem chegar onde se tinha proposto. Como agora, onde os desafios que o país tem de enfrentar se esgotam, com cruel nudez, num documento expectante, exemplo claro do estado de indigência intelectual de quem nos governa. Se razões fossem necessárias para mostrar o estado a que chegamos, uma democracia em agonia, bastava olhar para “um estilo de governo onde campeia o conceito medíocre, a opinião preguiçosa e a alergia ao estudo sério”. É a vida…
Roque Martins