Na crónica de Agosto passado, falei aqui do desastre que foi a gestão desportiva, de Luis Filipe Vieira e Jorge Jesus, na preparação da nova época. É na pré-época que se fazem os campeões. E o Benfica não fez bem o seu trabalho de casa. Os resultados estão a prová-lo. O Presidente do Benfica completou, a 31 de Outubro, dez anos à frente do Clube. Quando chegou, o Benfica estava sem credibilidade e à beira da falência. É a verdade nua e crua. Entretanto, num trabalho dedicado e persistente, construiu o novo Estádio em tempo recorde; ergueu o Centro de Estágio do Seixal; criou a Benfica TV – hoje já com uma facturação superior a 20 milhões de euros; construiu o Museu Benfica Cosme Damião, outra obra notável; transformou o Benfica no Clube com maior número de sócios a nível mundial; a marca Benfica é hoje reconhecida; e diz-se, foi-lhe devolvida a credibilidade económico-financeira. Tudo certo! As modalidades ditas amadoras voltaram aos sucessos. No futebol, o verdadeiro motor do Clube, a verdadeira mola impulsionadora da militância clubística, com tudo o que isso representa em termos económicos, apenas venceu dois campeonatos em dez anos, se bem que, os últimos dois, fossem oferecidos ao Porto. O mais grave de tudo isto, no entanto, são os dados financeiros há poucos dias divulgados. Não sou economista nem gestor, mas os números são preocupantes, até para um leigo na matéria. O passivo atingiu os 440 milhões de euros, dizem, devido à passagem da Benfica Estádio para a sociedade desportiva. Pelo quinto ano consecutivo são apresentados resultados negativos, isto é, prejuízos. As receitas não cobrem as despesas. E mesmo equilibrando este balanço anual, com a venda de jogadores ou com a nova receita da Benfica TV, nunca se conseguirá abater o passivo. Os juros da dívida representam 22,7 milhões por ano. Astronómico! As comissões pagas pela compra e venda de jogadores atingiram a verba de 7,5 milhões de euros, aumentando mais de quinhentos por cento face ao ano anterior (1,2 milhões)…! Também nesta matéria o Benfica quer ultrapassar o Futebol Clube do Porto, que sempre foi o campeão nestes assuntos…! A folha salarial continua a aumentar - no espaço de um ano a sociedade desportiva passou de 175 quadros para 219, quando, numa situação destas, deveria ser exactamente ao contrário. Tudo isto é assustador. E não é preciso ser um expert em matéria de gestão financeira – agora há muitos, na política como no futebol – para se perceber que o caminho não pode continuar a ser este. Gastar mais do que se ganha, seja numa família, numa empresa, num clube, ou até num País, como todos estamos agora a sentir, nunca deu certo. Mais tarde ou mais cedo, acabamos por pagar e com custos elevadíssimos. É preciso actuar enquanto é tempo.
Rui Abreu