Dias depois de acusar o Estado de “covardia institucional” e de considerar “indecente” o corte nas pensões, Alberto João Jardim, acabadinho de chegar daquelas desgastantes mas insaciáveis viagens de uma semana à Europa, trouxe afinada a justificação de uma outra “covardia” que ele próprio ordenou e fez questão de nem estar cá para ver: a da “indecência” dos seus deputados que, no momento da votação na generalidade da proposta de Orçamento de Estado para 2014, na Assembleia da República, resolveram levantar-se cabisbaixos e piscando o olho a Passos Coelho. Contrariando toda aquela cassete gasta de lágrimas de crocodilo derramadas sobre o basalto frio e que retumbaram vezes sem conta na Quinta Vigia e no ‘hall’ da zona VIP das Chegadas do Aeroporto, os deputados de Jardim deram a mão a palmatória e guardaram a outra no bolso para pedir algo em troca.

Quando se entrega uma coisa e recebemos outra em troca, estamos a transacionar, a traficar, a comprar ou a vender. Vamos acreditar que foi uma das últimas duas. Ao aprovar a proposta do OE2014, o PSD-M assinou uma espécie de contrato promessa de compra e venda, em termos que os senhores deputados advogados social-democratas bem sabem colocar e que será qualquer coisa assim: O primeiro outorgante, que não tem liquidez para mandar cantar um cego, entrega os madeirenses a: 1- Aumento para as 40 horas semanais; 2 - Redução remuneratória progressiva dos salários dos funcionários públicos; 3 - Cortes nas pensões e nos subsídios de desemprego e de doença. Em contrapartida, o segundo outorgante, com a pasta do tesouro nacional, compromete-se a transferir do Orçamento de Estado para a conta do Governo Regional, 10,5 milhões de euros acima do previsto para 2014 de modo a garantir o fundo de maneio necessário para a Administração Pública Regional conseguir fazer face às despesas correntes e aos encargos irresponsáveis com obras megalómanas que teimosamente foram contratualizadas e que agora colocam a Madeira à beira do incumprimento do programa de ajustamento económico e financeiro, também ele negociado e assinado com a ‘troika’ que nos está a pagar a penhora da Autonomia.

Mas diz o viajado presidente, num esfregar de mãos e espreitando a mesa negocial em Lisboa, que “ainda vai haver muito pano para mangas”. Quem conhece aquela alfaiataria com carreira há mais 30 anos na Madeira, sabe bem qual o resultado deste corte e costura à moda de Jardim. Sabe para quem são aqueles fatos à medida. E sabe o quão longas são as mangas. Sabe, enfim, que o que o PSD-M quer “negociar” não são as nódoas dos retalhos que levaremos para casa no próximo ano.

O que temos visto é que quanto mais este governo negoceia, mais nos vende. E mais nos veda aquilo que era nosso. Os tais “ajustamentos” que o PSD-M quer fazer à proposta de Orçamento de Estado podem estar cheios de boas intenções, mas são tão clarinhos como o algodão que não engana. Resumem-se ao mesmo de sempre: mais dinheiro e mais poder para o Governo da Madeira. O resto são lágrimas...