A história não é nova. Se calhar até já ninguém se lembra dela, mas eu, que gosto de histórias que mais parecem estórias, não consigo pô-la de parte sem refletir um pouco sobre ela. Não porque goste de política ¬– já reconheci nestas páginas que não é área que me seduza ¬– mas porque tem o seu quê de parábola ao contrário que convida à meditação. E digo isto e isto escrevo consciente de que esta minha alegoria induz à constatação de uma verdade dolorosa que, em vez de regenerar, acentua a degenerescência a que se assiste na Madeira desde que o PSD/M segue a lógica da razão do Poder e não a do poder da Razão. O mal, meus amigos, afinal compensa. Pondo de parte os trocadilhos, que ficam sempre bem nestas prosas (sur)reais, recriemos os factos que envolvem dois irmãos de partido que já deram nas vistas pelas melhores e pelas piores razões: o Bertinho, como Humberto Vasconcelos, antecessor de Jorge Romeira na autarquia de S. Vicente, é carinhosamente chamado pelas gentes daquele concelho, e o Mijinhas, deputado cujo nome não me lembro porque, confesso, dele a minha memória apenas conseguiu reter tristes figuras, dignas de comiseração. A última delas, na verdade, está na base desta minha narrativa. Até me surpreendeu ao ponto de, movida pela comoção, ficar com a lágrima no canto do olho. Quem, na verdade, não se emocionou perante um Mijinhas que, num ato de verdadeira consciência democrática, decidiu tornar-se independente por não se rever no PSD de Jaime Ramos? Foi bonito, sim senhor. Um grito do Ipiranga na bancada laranja em prol da integridade e transparência políticas vindo de quem, verdade seja dita, não tem água para se lavar. É claro que as más-línguas terão dito que a opção do ex-dirigente laranja dos jotas, cuja vida desregrada custa muito dinheiro, visava o bolo que os deputados independentes passariam a usufruir, caso o Tribunal de Contas não tivesse posto ordem no convento ou, melhor, no jackpot dos partidos, lembrando que, afinal, a verba anual é mesmo para estes e não para independentes. O presidente do Hemiciclo, aliás, já clarificou internamente esta questão, dizendo que não há dinheiro para nenhuma alma solitária, muito menos a do Mijinhas. Outras línguas viperinas, sugestionadas pela cumplicidade enternecedora entre Alberto João Jardim e o Mijinhas, sugeriram, por sua vez, que tudo não passa de uma estratégia política que tem como objetivo repetir o cenário de 2007 – a queda do governo e a antecipação de eleições. Não sei se é verdade, mas o certo é que basta um Mijinhas independente e um deputado social-democrata, incompatibilizado com Jaime Ramos, faltoso em dia de votação do Orçamento ou de eventual moção de censura ou de confiança para que tudo se desmorone e venham novas eleições. Será?... Enquanto isso, o Bertinho protagoniza outra história. Mais nobre, convenhamos. O homem, então cidadão independente, foi escolhido pelo PSD/M como substituto de Duarte Mendes em São Vicente, onde o partido carece de figuras de referência, o que, aliás, acontece noutros concelhos madeirenses. O elitismo partidário laranja, centrado no Funchal, tem esses custos, se me é permitido o aparte. É claro que, feito presidente da autarquia, Humberto Vasconcelos tornou-se militante do partido pelo qual foi eleito, chamando a si a missão de liderar os destinos nortenhos de forma autónoma e sem ingerências. Rolaram cabeças, por isso. Uma delas, dizem algumas bocas, muito próxima da Quinta Vigia. E o Bertinho, à conta disso, passou de bestial a besta, apesar de granjear junto da população uma simpatia singular e um grande protagonismo. Paciência, retidão e integridade eram o seu cartão de visita, mantendo-o ainda hoje como um dos políticos mais populares do concelho que, entretanto, o PSD perdeu. E é aqui que não resisto cruzar as histórias do Bertinho e do Mijinhas, figuras, quiçá, alegóricas de tudo aquilo que se deve e não se deve ser na política. O anjo bom e o anjo mau que desconstroem qualquer parábola, porque o deus em jogo não está para lições de moral e preferiu o segundo ao primeiro, idolatrando o mal e expurgando o bem. Chegado de Bruxelas, onde se encontrava aquando do ataque de altruísmo do Mijinhas, que, em praça pública, pôs em causa o PSD/Madeira, Alberto João Jardim tudo fez para dissuadir o irreverente deputado a não abandonar o partido. Para espanto de todos ou, talvez, não. Qual encontro de irmãos, só faltaram as lágrimas de outrora para selar aquele que foi um dos episódios mais rocambolescos dos últimos tempos. E o Mijinhas ficou para gáudio de deus, digo, de Jardim. O Bertinho, o tal paciente, reto e íntegro que tinha São Vicente na mão, já não conheceu igual sorte. Bem pelo contrário: não só foi afastado da corrida às autárquicas, como também carrega às costas um processo disciplinar que visa a sua expulsão do partido por, supostamente, confraternizar com o inimigo, leia-se os Unidos pelo Povo, à saída da Igreja. O tal deus não gostou. Perante os factos, volto ao início como o exige a circularidade desta narrativa que inverte a lógica de qualquer estória de encantar. O herói é o anti-herói e o anti-herói é o herói. Porque, como já disse, o mal compensa, principalmente quando deus usa a razão do Poder em vez do poder da Razão.

Eker Sommer