António Correia Meu querido e sempre lembrado João, espero que esta carta te vá encontrar a arrumar a trouxa.

Sempre tive em ti um aluno dedicado e servil. Nunca me traíste. Os teus escritos fervorosos e nacionalistas que publicaste no “Voz da Madeira” são a marca da tua dedicação ao “Estado Novo” que liderei até à minha morte.

Aqui, de Santa Comba, Não! (lá estou eu com esta mania de ser eterno). Perdoa-me João. Estou a escrever-te do além, mais propriamente do inferno, como podes verificar no selo aposto à carta onde figura um Satanás III em cuecas (mais ou menos como tu, naquele celebre carnaval).

Bem, retomando o assunto, só queria dizer-te que está na hora de te pores ao fresco.

Foi brilhante aquela da “Madeira Nova”. Bem que me fez recordar o meu “Estado Novo”. Os gajos não deram por nada. Responsabilizar a maçonaria, o Blandy, os cubanos, o São Pedro, etc., foi outra das tuas jogadas de bom aluno. Enquanto a ralé não abriu os olhos, resultou. A “Madeira Nova” que criaste deu para muitos se aviarem “à grande e à francesa”.

Chegou o tempo de te pirares. A coisa está a ficando preta. O jogo ainda está na primeira parte e já estás a levar 7 a 4. Todos aqueles que encheram a pança nestes trinta e tantos anos vão abandonar-te. Vai-te. Vai-te João antes que os pata-rapadas corram contigo de vez.

Antes que me esqueça, aconselho-te a dares cabo daquele monte de faturas esquisitas. Lembra-te da “Cuba Livre”. Esses gajos da oposição só querem auditorias.

A finalizar, junta aqueles teus amigos da “Flama”. Mete-te no barco dos Sousas e zarpa p’rás selvagens. Declara a independência do rochedo. Desata a inaugurar tudo o que puderes. Rochas, caminhos de cabras (o Jaime asfalta), retretes, etc. Apranta-lhe com placas em todas (inaugurado pelo rei das selvagens). Antecipa-te aos espanhóis. Se não conseguires a independência, declara a automama (desculpa João, com esta coisa do ortográfico dou cada pontapé…). Queria dizer, antão-não-mia. Que burro. Enganei-me outra vez. Não importa. O que importa é mamar. Chame-se como se chamar.

Olha, caso não consigas tomar conta do rochedo, sempre te posso mandar uma “carta de chamada”. Podes trazer a Élia. Serás bem recebido. Aqui não tens de pagar água nem luz.

Sem outro assunto de momento, despeço-me informando-te que enviei uma cópia desta carta para aquele pasquim que tu controlas. Sim, aquele que custa uns milhões à populaça.