De uma forma geral todos temos um desejo (nem que seja secreto) de protagonismo e todos gostaríamos de ser aquele que sabe a resposta. Esta realidade torna-se particularmente notória quando temos a experiência de estar com crianças, sobretudo as mais pequenas, e quando se faz uma pergunta ou se pede algo, é dito aos alunos que ponham o dedo no ar. Porém, quando se faz uma frase que tem uma interrogação as crianças põem todas o dedo no ar e quando perguntamos a uma delas, muitas vezes ela não sabe a resposta, nem faz ideia do que foi perguntado, pois estava tão preocupada em ser a primeira a colocar o dedo no ar que nem teve tempo para pensar se tinha alguma coisa a dizer ou mesmo o que tinha a dizer.

É verdade que é bom ver aquelas crianças que põem com propriedade o dedo no ar, e isso significa que estão a apontar não para os outros mas para o alto, para o céu e isso pode simbolicamente querer dizer que quanto mais interpelam, colocam perguntas e procuram respostas mais depressa se aproximam da sabedoria, entendida como algo quase divino.

Olhamos as crianças inseridas em turmas cada vez maiores e se, por um lado, muitas preferem ficar no fundo da sala, sentadas em filas bem distantes dos professores, para não serem notadas e também, como consequência, nada notarem, por outro lado há em muitas outras, uma vontade de sair do anonimato e de que alguém as escute.

Deste modo, pôr as crianças a competir por um lugar ao sol é algo de positivo, desde que tal seja feito em função daquilo que estas têm de singular e único e não tanto como exercício simples e gratuito de cotovelada, no sentido de ser o primeiro independente do que posso acrescentar ou não aquilo que esperam de mim.

Quando todos os miúdos põem o dedo no ar independentemente daquilo que não têm para dizer. Na prática, o que está em questão é saber quem foi o primeiro a colocar o dedo no ar e não tanto aquele que se distingue pela diferença das suas respostas, pela sabedoria das suas palavras. Quando tal acontece estamos a criar uma espécie de geração em que o que está em discussão é o lado egocêntrico, narcísico e vaidoso da própria afirmação perante os outros, mais do que o lado afirmativo de quem procura em si uma pequena parte, quase ínfima, do universo que o distingue de todos os outros. Esta perspetiva é preocupante, já que andar à cotovelada só para ser o primeiro não é o melhor exemplo, nem é isso que verdadeiramente distingue as pessoas em função do que possuem de diferente e específico em relação às outras.

É importante lidar com miúdos e crianças que, em contexto de sala de aula, são suficientemente disciplinadas para serem capazes de ouvir e fazerem-se ouvir. Porém, ainda existe, por vezes, em muitas cabeças, confusão entre aquilo que é o fazer barulho, o falar em cima uns dos outros, com o ser indisciplinado ou ser desordeiro. Não se pretende obviamente que os miúdos fiquem calados só para estarem calados ou em silêncio.

Alguns até reivindicam a existência nas escolas de uma espécie de quadro de honra para os alunos faladores, não para os indisciplinados. Estamos a falar dos alunos que põem o dedo no ar com propriedade e acham que podem acrescentar mais um pouco de si a tudo aquilo que já se discutiu.

Esses são claramente uma mais-valia para a escola porque uma escola é um local de discussão, é uma espécie de “praça” em busca do saber e da sabedoria. Não se pode é fazer confusão entre alunos faladores e indisciplinares e começar a colocar todos de dedo no ar, só para serem os primeiros, mesmo quando nada têm para dizer ou acrescentar.

Marco Gomes