Não os ouvimos a virar o corpo pesado durante a noite enquanto se queixam de dores na coluna ou nos joelhos. Não lhes sentimos os passos entre o quarto de dormir e o quarto de banho. Não damos pelas manhãs em que acordam sem vontade de sair da cama. Nem pelas manhãs em que querem correr o que corriam quando tinham 35 anos e nós corríamos à sua frente sem fazer barulho.

Não estamos quando acabam de comer, embora consigamos imaginar cada um deles a levantar-se da mesa e a ir ao armário da cozinha buscar a respectiva caixa de medicamentos. Ele em silêncio, céptico. Ela a legendar cada gesto, confiante no saber médico: quatro para o coração, um para a coagulação do sangue, outro para a retenção de líquidos, outro para a diabetes…

Ouvimo-la dizer, quando telefonámos no Domingo à noite, que está a organizar os medicamentos para a semana toda. “Ó minha filha, são 15 qualidades de remédios – sete de manhã e oito à noite.” E quase conseguimos vê-la, sentada no sofá da sala, com a caixa branca sobre os joelhos.

Os pais envelhecem. Os pais não param de envelhecer, apesar da distância dos filhos. E, às vezes, assustam-se, assustam-nos.

Telefonamos mais vezes. Temos mais paciência para conversas que se repetem, embora nem sempre consigamos manter a boca fechada, não dizer que já ouvimos aquilo na véspera, na antevéspera ou uma semana antes. Damos por nós a tentar convencê-los a comerem mais legumes, a não meterem batata na sopa, a reduzirem a carne, em suma, a terem cuidadinho com o que levam à boca. Incentivámo-los a andarem a pé. Queremos que se arranjem, que saíam, que conversem.

Um dia, ouvimos a nossa mãe reclamar: “Tive quatro filhos e não tenho um que me faça um chá!” E até podemos rir, fazer piadas sobre o facto de nenhum estar na ilha, mas sabemos o que isso significa. E temos medo, muito medo.

Ana Cristina Pereira