
Ramalho Eanes disse ontem, durante a homenagem a si prestada, ser “indispensável” e “imperativo” um “norteamento ético” da sociedade portuguesa, mais ainda nestes “tempos angustiantes”. Só é pena que o senhor General e o primeiro Presidente da República eleito democraticamente após o 25 de Abril, porventura o que menos usurpou na euforia da liberdade, tenha pecado por falta de objectividade, certamente para não ferir as susceptibilidades das centenas de ilustres que o ouviam na plateia. O grande pecado capital do nosso país sempre foi esse: usar paninhos quentes nos carolos de colarinho branco para aliviar a consciência política remanescente.
Enquanto o general falava dos “tempos angustiantes” e dessa necessidade atroz de encontrar o “norteamento ético”, a Assembleia da República aprovava – com os votos do quarteto sonso do PSD – o Orçamento de Estado que, entre uma série de incongruências, declarou legítimo que o Estado abocanhe salários de quem trabalha a troco de 600 euros. São laranjas do mesmo saco. A perfeita antítese ao “norteamento ético” teve momentos delirantes também na Assembleia Legislativa da Madeira. O mesmo partido que disse sim à pulverização fiscal foi ontem incapaz de aumentar um ponto percentual do salário mínimo, uma semana depois de fazer um afinca pé para manter cada cêntimo das subvenções milionárias aos partidos que todos os outros estavam dispostos a abdicar.
E nestes “tempos angustiantes” ouvimos o Governo Regional declarar que as contas públicas da Madeira estão “consolidadas e equilibradas”. Como se isso consolasse alguém. Basta espreitar a proposta do Orçamento da Região Autónoma da Madeira para perceber que aquilo está tão “consolidado” como a marina do Lugar de Baixo em vésperas do desmoronamento. A derrapagem já nos custou mais de 100 milhões de euros sobre o custo daquela obra de utilidade duvidosa que assassinou o paraíso natural nomeadamente para o surf. As contas públicas estão tão “equilibradas” como o estatuto editorial do JM e a sua infame estratégica propagandística. Como pode um jornal lesar o erário em 11 mil euros por dia sem garantir qualquer retorno? Esta gestão danosa irresponsável que criou um buraco de 48 milhões de euros, sob a bênção da Igreja, só tem um interessado, e muito pouco católico, entre os mais de 200 mil ‘sócios’ contribuintes.
“Consolidados” estão os vícios antigos do Governo Regional que continua a desterrar o que não tem e a desprezar a inteligência do povo. Por “consolidar” está o ajustamento da política à realidade, as prioridades da acção executiva, os cortes na despesa supérflua e o apuramento da responsabilidade material pelas decisões deliberadas que nos conduziram a este desnorte ético, moral, económico, financeiro e social, e daqueles que, nas salas do Palácio, se vangloriam por terem descoberto o apregoado ponto de equilíbrio das contas públicas, à conta de um plano de resgate externo e de uma ‘troika’ mais interessada no cumprimento dos prazos de pagamento das tranches e dos juros dos empréstimos à dívida do que em saber que este Governo da Madeira está por dias, nunca se dignou a reformar coisa pública nenhuma e já saliva ao espreitar a previsão de receita para 2014, naquele que será maior "malhão" fiscal que os madeirenses alguma vez sentiram na pele, desde a descoberta da liberdade.