O Primeiro Homem No centenário de Albert Camus, pus-me a pensar no livro «O Primeiro Homem». Transpus-me para os tempos de Fortaleza, onde à mesa do Florida Bar, o mote era «jogar conversa fora». Estava-se ali a falar da religiosidade. Somos todos de fé – muita e demorada, uns de litúrgica, outros de sincrética fé. Dispensando altares, sendo nossos avatares a filosofia. Vai-se sempre pela marcha dos dias e raramente centra-se no pensar a rota assumida. Nisso, apetece ser com Padre António Vieira, já que cada estrada requer o seu sermão. O Verbo, primeiro no Livro, sê-lo-á sempre no resto da jornada. Por isso, mesmo carregando as dúvidas filosóficas, importa seguir em frente, sempre a questionar os dias e as noites. Dirão os leitores que o articulista anda meio reflexivo, senão mesmo totalmente entregue aos pensamentos. Levando o «Primeiro Homem» em nós, mutatismutandis, levá-lo-emos até aos últimos dias. Inexoravelmente. Alguém propôs falar do Criador e da criatura. Da sua cria. O meu amigo Crisolino, “glmouroso” de papel passado, dizia que Deus operou meio milagre ao criar o homem. Já no caso da mulher, o seu ao seu dono, Ele operou milagre e meio. Fê-lo, mais por cálculo da costela do que ilusão de obra-prima. Fê-lo e deixou a obra fazer seu percurso sozinho. Existencialmente, ao susto do primeiro. Em Pequim As movimentadas artérias da cidade de Pequim, capital da República Popular da China, ainda confundem um bocado ao ocidental que carrega, para mirar vertiginosas mudanças, um outro registo mental. Em boa verdade, a realidade chinesa mudou mais depressa do que a nossa capacidade de inferir o acontecido. Instalados no simplismo de idealizar a sociedade comunista e colectivista, em que as mulheres se socializavam em azul, como vaticinou o Poeta Vinícius de Moraes em «Receita de Mulher», temos, sim, choque cultural diante das novas amazonas destilando charme e elegância (de consumo qualificado, diga-se de passagem), na Praça da Paz Celestial. Às tantas, o nosso preconceito, fruto de tanta ignorância, encara que o Império do Meio já não é só a Grande Muralha. E, outras tantas, o nosso descobrir (no maravilhado de um Marco Polo, de quando em tais paragens) que as bicicletas de outrora são hoje um parque automóvel fabuloso. Diante disso, sem ilusões, mas convictos, saberemos o alcance das palavras do sábio Deng Xiaoping de como «gloriosa a riqueza». Mau grado tudo, a riqueza da alma…da pessoa na inferência de tudo valer a pena. O mundo…dos novos mundo A ilha da Madeira foi muito propalada durante as reuniões em Pequim. Todos queriam saber como funciona a iniciativa das escolas multilingues e multiculturais. Em verdade, a China, onde a quantidade é escala consagrada, torna-se estratégico reconfigurar a sua oferta pedagógica para o multilinguismo e o multiculturalismo. Talvez por isso, as escolas americanas, australianas, britânicas, francesas e canadianas já concorram para instalar pólos na China. Mas falava-vos da Madeira, de onde a experiência multilingue e multicultural já se aponta para Cabo Verde e Angola, numa primeira itinerância, mas, com ousadia e sentido estratégico, faria também sentido em Macau e, a susto, na China. O mundo dos novos mundos e Luís Vaz de Camões não diria melhor. O susto do primeiro O meu amigo Airton Monte, em tertúlias pelo Clube do Bode, em Fortaleza, dizia que «o primeiro poema deve ser parecido ao susto do primeiro»

* Filósofo e escritor, conselheiro do Primeiro Ministro de Cabo Verde

Filinto Elísio *