Depois do “tsunami” autárquico do passado dia 29 de Outubro, muitos foram lestos a decretar o fim do jardinismo e a augurar uma nova era de democracia e liberdade na RAM, como se todos os males estivessem prestes a evaporar-se por mero decreto. A dura realidade começa, contudo, a cobrar o seu preço. Passado quase um mês é já bem claro que o partido que ainda governa o arquipélago não pretende facilitar a vida a ninguém nem vai entregar o poder numa bandeja. O PSD está longe de ser um partido agónico – não está moribundo, mas sim furibundo! Manteve quatro concelhos, e na generalidade dos outros (excepção feita a dois baluartes independentes – São Vicente e Santa Cruz), mantém uma presença nos órgãos autárquicos que não é de todo despicienda. Além disso, continua a ser o partido dominante nas Juntas de Freguesia – 32 em 54. Pode esta maioria estar assente no degrau inferior do poder político, mas não é menos relevante. As inúmeras ramificações (diria que tentaculares) que existem a este nível permitem um constante e frutífero exercício de pressão e de influência sobre cidadãos e instituições, e aposto que os dirigentes do PSD já começaram a preparar o trabalho de casa. A capilaridade desta rede de canais de poder é difícil de combater, e ao PSD não interessa que seja assunto de ribalta: é um trabalho de sapa, discreto mas venenoso… O que já faz fervilhar os partidos, poder e oposição, são as próximas eleições regionais. E faz sentido, perguntar-me-ão, debater cenários pré e pós eleitorais com tanta antecedência? Claramente! Uma vitória ou derrota eleitoral começa a desenhar-se nos bastidores, na antecipação, na análise, na estratégia… E convenhamos que é cada vez mais real a possibilidade de partirmos para eleições antecipadas muito antes de 2015. No PSD há três cenários possíveis de antecipar: Jardim continua (apesar de ter dito que não – o que já fez tantas vezes!); Jardim consegue a proeza da sucessão dinástica, fazendo eleger o delfim Manuel António, devido à dispersão de votos pelas candidaturas de Marques, Sousa e Albuquerque; Marques e Sousa abandonam a corrida e apoiam Albuquerque, garantindo-lhe uma vitória folgada contra Jardim ou Manuel António. À oposição compete desde já preparar a resposta a cada um destes cenários, mas alguns partidos parecem ainda inebriados pelo doce aroma das vitórias recentes, mesmo quando estas foram francamente empoladas na sua dimensão – mas claro, há sempre egos internos por satisfazer… Para CDS e PS, os desafios são em muito coincidentes: disputam entre si o título de líderes da oposição, e ambos com argumentos que consideram válidos: o CDS foi o mais votado das últimas legislativas, o PS foi o que mais capitalizou os resultados das autárquicas. O percurso recente destes dois partidos é de sentido inverso – o PS ganhou câmaras, colocou a “Mudança” ao peito como se fosse sua, encostou-se à vitória do JPP – e Vitor Freitas está em alta. Mas corre sérios riscos – não será fácil tirar outro “Cafôfo” da cartola - e dificilmente poderá ser ele a encabeçar uma proposta multi ou pluripartidária. Além disso, a aliança com as franjas do espectro político, que ajudaram a conquistar o Funchal, poderá não ser suficiente para ganhar a Madeira… Quanto ao CDS, apesar do resultado global favorável e da brilhante vitória em Santana (e na Calheta), a análise ao que se passou no Funchal não deixa de indiciar algum desgaste e cansaço. José Manuel Rodrigues continua a ser líder sem contestação interna, mas terá de promover uma nova dinâmica, que simultaneamente mantenha (ou recupere) os eleitores tradicionais democrata-cristãos e adicionalmente cative uma parte significativa do eleitorado flutuante. Ir a jogo sozinho pode ser catastrófico, e uma aliança à direita corre o risco de ser mal interpretada, por replicar a “odiada” coligação que governa o país. Estará na forja uma frente comum contra o PSD? Passo a palavra aos líderes…

Raul Ribeiro