De uma vez por todas – eu não quero austeridade. Na verdade, penso muito nisso. Juridicamente, se a expectativa de receber uma pensão será assim tão diferente da expectativa de não ver a casa expropriada ou a fortuna confiscada. Na expiação colectiva. Em toda a subversão destas coisas, quando abordadas pessoalmente. Mas isto pouco tem que ver com querer, com justiça absoluta (ab solutus: livre de). Tem que ver com poder, com a justiça possível, com a justiça amarrada pelos constrangimentos de viver entre os outros. Esses outros – os mercados – não são vampiros, agiotas, fascistas, porcos capitalistas. Salvo casos marginais (ele há dentes afiados), são pessoas, que aplicam o seu dinheiro como tu aplicarias – isto é, a ver se minimizas o risco e ganhas algum. Sim, há intenção nisto. Mas é uma intenção natural, que é da tua tendência, humana, de buscar o teu próprio bem-estar. Sei que julgas esta natureza imoral. Mas o certo é que quem empresta não procura cilindrar Portugal, recuperar a Irlanda ou abonar a Alemanha. Quer ganhar dinheiro. E se este não te parece desígnio natural, provavelmente não te estás a ver do lado de quem empresta. Querer mudar essa natureza de um dia para o outro é meritório, mas também idealista. Como dizia H.L. Mencken, coisa de “Alguém que, reparando que uma rosa cheira melhor do que uma couve, conclui que também fará melhor sopa”. E o que me desconsola em ti, que simplesmente estás contra, é esta incapacidade de compreender a alquimia perversa entre pensamento e acção. Lamentas que sejam os mercados a mandar na política, mas esqueces que, quando a política manda nos mercados, manda também demasiado nas pessoas, que se vêem despojadas da iniciativa pessoal, da riqueza e, com elas, das liberdades civis – e se julgas que não há exemplos na História, olha pelo menos para a América do Sul… Por outro lado, garantes que tens uma ressurreição humanista para a Europa em mente. Mas omites que em França, no coração dessa Europa, há um insuspeito governo de Esquerda que não dispensa os cortes de despesa e aumento de impostos, enquanto a desilusão fomenta a rejeição popular e a perda de votos para extremistas de Direita. Como vês, a minha quezília contigo não é (só) de consciência. É de ciência. Mais do que provar que são “bons” e nos querem bem, os que nos lideram têm de provar a possibilidade daquilo que oferecem. Não basta ser contra o sofrimento. Em política, tudo se faz em detrimento de outra coisa. Se limitas os lucros, as empresas não crescem nem criam emprego. Se tributas as fortunas, os afortunados tiram-te o dinheiro do País. Se pagas a pensão ao Manuel, não desces os impostos ao Jorge. Se rejeitas as condições do empréstimo, afrontas o crédito que te vai pagando as prestações sociais. Parece fácil melhorar a partir daqui - mas não é. Cada intenção tem um alçapão, cada escolha, um custo. É por isso que o que foste ver há dias na Aula Magna não é política, mas ficção. Não é um projecto de poder, mas um projecto de chegada ao poder. É simbólico da luta contra a opressão, mas ainda mais simbólico da luta contra a realidade. Uma rosa que cheira lindamente e da qual, iludidos, todos insistem em fazer sopa. Tem vezes em que te culpo. Mas suponho que acreditar, mesmo contra todas as evidências, seja também da natureza humana. Nisto, como noutras coisas da vida, cada um luta onde quer – e essa, para ironia tua, é liberdade que só encontras entre os vampiros, os porcos, e a sua proverbial ganância.
Pedro Fontes