Estamos a viver um tempo complexo. Há uma crise tremenda que arrasa, os ideais do bem-estar da humanidade. Mesmo assim, emergem inesperados sinais de mudança e de reformas que nos deixam cheios de esperança. Os tempos são negros para muitas pessoas, mas estão grávidos de vida nova que vai fazer brilhar a luz. O Papa Francisco é neste momento o sinal mais forte desta esperança e desta vontade de mudança que paulatinamente começa a fazer caminho. Alguns não gostam. Parece preferirem o antigamente, uma história parada no tempo e circunscrita ao templo onde guarda apenas alguns, os puros, os eleitos, os salvos, os dignatários, os príncipes… Contra as periferias, onde estão os esquecidos, os pobres, os simples, os publicanos, os Zaqueus considerados ladrões, impuros e gente de má linhagem. O Papa Francisco, achega-se a estes, abraços e beija-os, considerando-os cristãos e filhos de Deus. E agora? – Afirma o seguinte o Papa Francisco: «Sou daqueles que “privatizam” a Igreja para o seu próprio grupo, a sua nação, os seus amigos? É triste encontrar uma Igreja “privatizada” por este egoísmo e esta falta de fé» (Zénit, 25 de setembro de 2013). Face a estes tempos novos desta Igreja que abraça o mundo têm surgido umas cruzadas (campanhas) contra a ideia da mudança com missas tridentinas e cerimónias de cariz ultra conservador com alta pomposidade e amplamente divulgadas para mostrar a todos que a liturgia ricamente ornamentada é a única que tem valor e a única que conduz ao céu. Um dia destes um amigo partilhava comigo que esta atitude católica fundamentalista, agressiva está ao mesmo nível dos judeus fundamentalistas que roubam terras e expulsam os árabes do seu património, ou dos fundamentalistas islâmicos que pela lei da força querem converter os restantes. Ver um padre incitando à má educação... E sobretudo à falta de respeito por um templo, que é e será sempre um local de paz e de acolhimento de todos. Aqui se mostra como o espírito de cruzada está bem latente na cabeça de alguns, convencidos que isto só lá vai pela força... Fracas cabeças, pobres corações sem Fé. O fundamentalismo judeu e islâmico inquieta-me e entristece-me. O cristão-católico irrita-me e revolta-me. Basta ver Jesus e o Seu Evangelho. Neste ambiente, andou um destacado antigo bispo de Portugal a participar em celebrações tridentinas. O Tridentismo é uma forma de ressuscitar o conservadorismo anacrónico e é também fundamentalismo contra as reformas do Papa Francisco. Custa muito ver que gente inteligente, que se diz adepta da Ecclesia semper reformanda, que dizem pregar o Evangelho da inclusão de Jesus de Nazaré contra todas as formas de exclusão, afinal, também embarca no requinte e na riqueza exagerada que este conservadorismo sempre manifesta. Uma campanha perigosa. Há cinco ou seis séculos atrás, o fundamentalismo católico fez-se com as cruzadas contra os infiéis e foi também a negra inquisição que dividia a sociedade em bons e maus, santos e bruxos e combatia esse maniqueísmo com métodos bárbaros. Eis algo que nos envergonha hoje e são sempre elementos de arremesso duro no debate sobre a história da Igreja Católica. Porém, resta salvaguardar que não eram todos os cristãos e todos os grupos de cristãos que assumiam a violência como método principal de conversão e de evangelização do mundo. São muitos os santos e mártires que nesse tempo souberam acolher a mensagem do Evangelho como semente de amor. A definição de Igreja para hoje e para o futuro está no Concílio Vaticano II, que se inspirou na ideia do Antigo Testamento, sobre o «Povo de Deus» e descoberta mais tarde pela inteligência de Pedro, ao dizer, são finalmente constituídos em «raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo conquistado... Que outrora não era povo, mas agora é povo de Deus» (1Ped 2, 9-10). Todas as tentativas de retrocesso revestidas de fanatismo que por aí andam, porque contradizem a vontade de Cristo, não passam de uma roupagem idolátrica e anacrónica, que não salva senão os comodismos pessoais dos interesseiros deste mundo e enche o ego de quem gosta de encher o vazio que o assiste com a roupagem da pompa e da circunstância.
José Luís Rodrigues