A violência, seja sobre quem for, sobre que ser for, por que motivo for, envenena e envilece uma sociedade. As consequências de um «culto» do embrutecimento e da violência sobre os animais e sobre a natureza na própria cultura e psicologia humanas não são, na maior parte das vezes, sequer equacionadas. E deviam ser, porque os actos de violência que vitimam outros seres vivos da natureza, vitimam, primeiro que tudo, a própria humanidade dos que os praticam. Como pode uma cultura humana ser pacifista dentro das suas estruturas familiares, sociais, políticas e económicas se, no seio da nossa cultura específica, por exemplo, é considerado normal e aceitável que a morte violenta e não-anestesiada de um ser vivo senciente: dotado de sistema nervoso central, e consequente sensibilidade e psiquismo, seja um evento e «espectáculo» públicos, familiares, e congregadores de uma comunidade numa altura de Festa? Que, aliás, deveria servir para comemorar o nascimento de um homem que erigiu a Paz e o Amor como os guias de um mundo mais justo, fraternal e pacífico. A “tradicional” matança do porco deve ser denunciada e ultrapassada, não só porque corporiza o sofrimento e morte, com imensa dor, de um ser vivo senciente em público, mas também porque corporiza um acto de «celebração» da dor, da violência e da morte numa cultura humana assim ludicamente anestesiada para o Sofrimento, quer dos nossos parentes biológicos animais, quer dos próprios seres humanos. Não há ninguém com quem tenha falado, e que tenha testemunhado a matança na infância, que não admita ter ficado traumatizado/a com o que assistiu. E mesmo os que em adultos a praticam, tenho a certeza de que, ouvindo os gritos de desespero e ansiedade do pobre animal, e ao espetar o facão para degolá-lo, os seus corações devem estremecer e as mãos vacilar, nem que seja por uns segundos, porque no fundo inconsciente de si mesmos sabem que tal acto é contra-natura e eticamente errado… Deixo-vos com uma sugestão de leitura: leiam «O Porquinho que Cantava à Lua – O Mundo das Emoções dos Animais Domésticos» de Jeffrey Moussaieff Masson, (Sinais de Fogo, 2005), onde se demonstra cientificamente a sensiência dos animais de criação. Boas Festas não-violentas a todos vós!

Miguel Santos Cooperante da ‘Espaço às Artes - Cultura Ponto Zero’