Queria pedir-te que não me deixes ficar só. O peso da morte, o silêncio branco em derredor deste sol que madruga quase vegetal através da janela. Como vês, não durmo. A casa treme de frio e de medo, cercada pela alquimia da neve, que uma chuva com risos chocos começa a gangrenar. Ontem, ou anteontem, ou há um ano…caminho eu no vazio. E agora a neve prolifera, sobe até à varanda dos meus desencontros, do humor desencantado. O mundo enlouquece: esta violência do branco contra a noite, contra a minha noite, saturada, remendada, só vista! Estou afinal a nascer-me nesta agonia, percebe. A vida e a morte tocam-se cá dentro como a espuma da onda e dos seixos. Vou exorcismar os meus demónios mais íntimos, redefinir-me. Grito por ti dentro da noite. Vejo-me, no espelho, triste ( e na moldura da janela o sol é agora torrencial), vejo-me a andar para o fim da tarde ( para a dor? ), afastando-me do teu olhar, mas sem deixar de o sentir, a arder nas minhas costas. Pouco importa se foste tu que e relevaste a mim própria ou eu que finalmente me achei ( que presunção! ), achei o quê?, quem sou eu? E tu, que foste para mim inocência, liberdade, o calor, o jorro de uma fonte, ilusoriamente eterna, e não sabes quem és - eu é que te vejo, te modelo, te acendo como à chama que preciso. Eu. Eu, tu, este diálogo de cegos a esfarrapar-nos. No percurso sem fim, no labirinto das palavras: como estas talvez, meu amor, palavras feridas pelo vento de neve que há pouco me cortava o rosto em Viena e que no espaço se transmudam, vozes douradas nascidas. Não há orgulho nem vontade de domínio no que te confesso: pelo contrário, peço apoio, tento remir o corte, a ferida narcísica, a queda em espiral, tudo o que me acontece antes e depois de ti. Refiro-me à solidão que tu, com um só gesto, como quem diz « estou aqui », consegue quebrar. Sabes, isto é apenas um intervalo de racionalidade. Porque eu própria estou a submergir-me. Tenho sonhos doentes. Vejo-te: sais de um grande quadro azul, onde todas as outras figuras são fixas e estão sentadas de joelhos, completamente imóveis. Só tu consegues desprender-te daquela cor, e vens ao meu encontro, mas não chegas a aflorar-me o cabelo com as pontas dos dedos: alguém te segura, alguém cujos contornos não logro distinguir. Noto que estás mais magro, quase transparente, o teu perfil angelizou-se, parece que vou cair. Duvido que sejas, de que fosses tu. E talvez por essa dúvida ( ou só por te querer ) me castigam. Não posso olhar para a janela. Estou proibida de ver a paisagem - as florestas do frio, a neve terrível, que imagino agora como um tropel de arcanjos. Estou fechada dentro de mim. Impossível comunicar. Tenho de abrir à luz esta janela que fecharam, mas como? Desfilam sombras pelas paredes deste meu silêncio e, bem sei não podes acudir-me. Nada espero de ti - e, afinal, espero tudo, irracionalmente. Será este o ponto de ruptura? Libertação ? Tomada de consciência? Mas se tu és a minha libertação? Ou estarei possessa? Não quero esconder-me nunca mais, de nada, de ninguém. E sei muito bem que tenho que fingir. E nem é só por ser mulher. É porque ainda não chegou para todos o tempo das verdades que queimam e curam, que hão ser tão naturais como as flores, não as das jarras, mas as outras, as que desabrocham e morrem, naturalmente, no cristal do tempo, muito simplesmente, sorrindo ao sol e ao Sul de uma felicidade brilhante. Não faças caso: são visões. Ou talvez não… Somos um para o outro espelhos. Alternadamente és tu, ou sou eu, quem analisa e quem se dá a analisar. Sem histeria, sem doces ilusões tão-pouco, e com uma dor inacalmável, com a ânsia antiga como o mundo. Somos ambos criaturas de desejo, de amor. Mas num tempo difícil, sob esta lâmpada tão crua, tão exigente, tão feroz, de riso, que ilumina o circo, a nossa civilização. Eu até, talvez, sinta o mesmo que Tristão, que Abelardo, que Bernadim. Mas o cárcere é outro e, estranhamente, a sexualidade desculpabilizada, a desmistificação do amor às vezes custam ainda mais a carregar. Não concordas? Queria jurar-te com sangue, não com palavras, não com promessas, que não as faço ( temos contra nós o tempo e o espaço ), queria só dizer-te como por ti me daria para restituir-te à vida verdadeira. E não sei se isto é amor, não sei o que é amor, nem já me importa, começo a odiar a linguagem : preciso de suprimir o espaço, estreito, que nos separa de um fusão absoluta. Queres saber o que aconteceu esta noite? Andei por escuríssimos corredores, ou talvez não tão escuros, banhados afinal por uma « obscura claridade » e, depois de ter falhado três vezes a minha morte, entrei no mar, num mar sem sol exterior, denso e profundo. Este contar-te, contar-me, esta solidão, tão escandalosamente, que visa destruir a identificação simbólica e todas as máscaras também. É só um pequeno gesto na tua direcção, porque eu próprio caminho nas trevas. Temos de atravessar ainda cidades e pessoas, prisões que hão-de explodir, sebes como lâminas agudas, que havemos de colher e empacotar, para efeito de catalogação; e forçoso nos será andarmos sobre rochas, à beira-mar, à beira-útero, sobre pontas de diamante e pólipos vermelhos, com corrimento… Algum dia, acredita, tornaremos a encontrar-nos e então completamente despidos, tanto quando poderão está-lo, frente a frente, um homem e uma mulher. Será preferível saber? Assumirmo-nos totalmente? Penso que será diferente meu amor.
Renata Camacho