Sim, qual é o medo dos autarcas que estavam no poder e passaram para a oposição em relação às auditorias? Sobretudo em Santa Cruz e no Porto Santo, a cada dia que passa mais se nota um estranho nervosismo. Compreendo que uma auditoria, seja ela qual for, descobrirá sempre pequenas falhas, opções discutíveis, facturas pagas fora de tempo ou sem o devido cabimento orçamental. Mas isso poderá justificar-se facilmente com os processos administrativos, com prazos, ou até opções políticas antigas, tão legítimas como as de quem manda agora fazer uma auditoria. É por isso que não compreendo este receio dos autarcas que eram poder e passaram para a oposição e agora alertam para os custos e ameaçam com contas ainda mais antigas perante as novas auditorias. Além de ridículo, essa atitude revela uma tremideira inesperada. A não ser que dentro daqueles armários estejam esqueletos escondidos, ou que das gavetas saltem mais facturas sem explicação ou opções que de tão erradas nunca encontrarão justificação aceitável, nem sequer no livre campo das escolhas e decisões puramente políticas. Só a falta de cultura democrática ajuda explicar que autarcas responsáveis, como alguns que agora passaram para a oposição e ainda não perceberam, vejam como um desperdício que os novos eleitos mandem especialistas vasculhar o que fizeram durante anos e anos. Só a falta de hábito e de alternância legítima essa repentina preocupação com os gastos públicos e a necessidade de ajudar os pobres. Mas quando essa súbita vontade de poupar se sobrepõe à necessidade de clarificar, então é porque será mesmo preciso ver papelinho a papelinho. As auditorias às contas antigas, mesmo sendo um processo oneroso, fazem parte das boas regras de gestão, sobretudo em política. Podemos estar mal habituados, haverá certamente autarcas que nunca pensaram que iam perder eleições, que nunca se imaginaram a ter de prestar contas públicas do que fizeram com o dinheiro dos contribuintes, mas isso é outra história. O que os novos autarcas devem fazer é tornar transparente o que era opaco. E daqui a quatro anos, os que forem eleitos devem fazer exactamente a mesma coisa se assim o entenderem. Perdem-se uns milhares em auditorias mas talvez se evite gastar milhões em desnecessárias mordomias. Agora que as investigações estão a ser feitas, que os técnicos estão a cruzar dados e facturas e concursos e deliberações e outras justificações, convém dar tempo ao tempo e esperar calmamente. Até pode dar-se o caso de a auditoria não revelar nada de estranho e a vida continua. Oxalá isso aconteça. Até lá, não será má ideia relaxar seguindo aquela máxima de António José Seguro que passou a piada nacional: “Qual é a pressa?” Sim, qual é a pressa?