Caro Mr. Michael Blandy. Conhecemo-nos pessoalmente num magnifico jantar em casa de um amigo comum onde, entre outras coisas, saboreamos uma magnifica sopa de rabo de boi à boa maneira Inglesa (ainda não comi uma igual). Nos 8 anos que se seguiram até hoje, temos circunstancialmente nos encontrado, cumprimentando-nos. Estava, nessa altura, o meu filho mais velho a iniciar os seus estudos em Inglaterra. Dai para ca seguiu-se-lhe a minha filha e ambos evoluíram, ele tendo terminado o seu Doutoramento e por lá continuando e ela terminando o seu Mestrado e deslocando-se para Lisboa para Doutoramento, mas sempre com o olho posto no regresso a Inglaterra. Lembro-me quando o meu falecido Pai era ainda Ajudante de Despachante na Alfândega do Funchal e eu iniciei por volita dos 3 anos um quadro de estrabismo que era necessário tratar em Lisboa por indicação do falecido Dr. Franga Jardim, que foi no «Diário de Notícias» que Ele encontrou uma forma de ganhar algum dinheiro extra para financiar os meus tratamentos e viagens, assumindo um posto de revisor desse matutino. Nessa atura e nos anos subsequentes era costume Ele tomar café aos sábados e domingos no Sunny-Bar. La confraternizava com pessoas de elevado trato, pessoas que me habituei a ver e tratar com elevado respeito: o Sr. Joaquim de Gouveia, recentemente falecido que foi muito Amigo do meu Pai e também meu; o meu primo Odório Homem de Gouveia; o meu tio João Figueira de Freitas; o Sr. João Carlos, o Sr. Sardinha... e tantos outros (que me desculpem se não os cito ou não recordo os nomes!). Todos funcionários da Casa Blandy; Senhores na verdadeira acepção da palavra. Mais tarde, já Despachante Oficial, o meu Pai trabalhou muito com a Agência Blandy. Daquilo que ganhou, muito terá contribuído para os meus estudos e formação, bem como para o bem-estar da minha Família. Há semanas atrás tive o grato prazer de jantar numa modesta casa, meia furna-meia casa (sem qualquer pudor e antes pelo contrario com muita honra...), no sopé do Palheiro Ferreiro, onde foi muito elogiado a apoio que estes seus ex-caseiros tiveram por parte da sua Família e foi-me até salientado o facto de ainda hoje terem água disponibilizada das nascentes próprias, a custo zero. Lembrei-me então de no passado, e ainda hoje tanto quanto sei, o gesto da sua Família franquear as portas da sua Quinta para que o Povo pudesse festejar um dos eventos populares mais significativos da Região como é 1° de Maio, expontâneo, simples, popular e sem conotação política. Uma coisa puxa a outra e vieram-me ao pensamento a aposta Blandy na economia da Região, com o Banco Blandy, os vinhos, o golfe, a agência... enfim, perguntei-me quantos postos de trabalho gravitam à volta do Seu nome e quanto ganha a economia da Madeira à volta do seu nome. De seguida transponho tudo isto para outras Famílias: Leacock, Cossart, Welsh, Hinton, Zino...sei lá. Então, a pergunta vem de imediato: quanto contribuem os Ingleses para a economia e desenvolvimento da Madeira; até na Ciência, se nos lembrarmos da Família Zino, por exemplo. Quanto deverão os Madeirenses a estes Ingleses? Que falta de exaltação da Madeira no Mundo, pertence a esta gente, depreciativamente chamada de «gentinha«? Às vezes, porque sou realmente um admirador confesso do Reino de Sua Majestade, pergunto-me se não teria sido melhor que o Marquês do Funchal não tivesse tido êxito nas suas diligências!?...Enfim, contas de outro rosário... Voltando ao que me levou a escrever-lhe esta carta devo contar-lhe que há cerca de 6 anos atrás quando a minha vida levou um golpe muito duro, a primeira coisa que me assaltou o pensamento foi a de ir ao encontro dos meus Filhos para Southampton, com a minha Filha mais nova então com 8 anos. Não fui porque felizmente encontrei um novo caminho de vida e por ca fiquei. No entanto, tudo farei para que a minha Filha agora com 15 anos e os meus Gémeos entretanto nascidos, na altura própria, possam zarpar a Inglaterra. Porque a carta vai longa digo-lhe porque é que decidi escrevê-la: Você poderá não ser certamente um santo mas não é de certeza tão ruim para merecer as maldades, os ataques desmesurados e as desconsiderações de que tem sido repetidamente alvo. Pelo menos não é da sua responsabilidade o facto de hoje termos perdido a nossa Autonomia! Afinal quem não se lembrará de ha 3 ou 4 anos termos viagens mais baratas, IRS mais baixo, IVA mais baixo, subsidio de insularidade e outras benesses que de um momento a outro «sumiram» nesta Região (nos Açores, não...)? Pelo «andar da carruagem», V.Ex.a. qualquer dia é conotado com a Maçonaria e responsabilizado por estas perdas!... Pode não querer dizer nada mas queria deixar-lhe duas mensagens: Como Madeirense envergonhado por tanto despudor, peço-lhe desculpas do que lhe tem sido feito; Como Madeirense e Cidadão Livre demonstro-lhe todo o meu apreço e agradeço-lhe o facto de contribuir para o desenvolvimento desta minha e sua Terra. Obrigado Mr. Blandy

Manuel França Gomes