Ainda é frequente ouvirmos dizer que a escola do antigamente é que sabia ensinar, nesse tempo, os alunos sabiam o nome de todos os reis de Portugal e dos rios, decoravam a tabuada, sabiam ler, escrever e contar. Até podiam ter esses conhecimentos bem memorizados, todavia, a escola não estava aberta a todos, só alguns é que tinham o privilégio de conhecer uma sala de aula, aí, não havia indisciplina, a família assumia o seu papel e os professores eram respeitados. Hoje, a escola, com melhores condições e professores bem qualificados, acolhe todos os alunos até aos 18 anos, os que querem e os que não querem, e assume diversos compromissos além do ensino e da aprendizagem. A escola transformou-se no amparo social das famílias. Muitos pais entregam os seus filhos aos professores, em alguns casos, durante o dia inteiro, uns por questões laborais, outros por negligência ou por força do hábito e exigem que a escola lhes garanta não só proteção, comida, transporte, ensino, educação, formação para a cidadania como esperam também que os professores estejam atentos aos indícios de abusos sexuais ou de violência física, aos problemas com as toxicodependências e se apercebam das situações em que a família perdeu o rendimento de inserção social, por incúria, para que a escola possa assegurar as refeições aos seus educandos. Os governos, sem definirem, de modo claro e coerente, o que é que pretendem da escola, atiram tudo lá para dentro e pedem tudo aos professores porque assim, quando as coisas correm mal, torna-se fácil responsabilizar, sem apelo nem agravo, quem foi obrigado a receber tudo nas suas mãos. Antes de acusarem seja quem for, o útil seria pararmos para refletir sobre a escola de hoje, mas sem nunca esconder o nosso ponto de partida: em 1878, a taxa de analfabetismo em Portugal era de 80%, na Suécia era de 0,4%, na Alemanha 0,51%, em Inglaterra e na Escócia, 1%, na Noruega, 0,08% e na Dinamarca, 0,36%.

Rui Caetano