Já era assim com Hugo Chávez, e continua a sê-lo com a ‘cópia’ fabricada pela inteligência cubana: é difícil de não concordar, no campo dos princípios, com algumas das ideias repetidas pelos dois últimos presidentes da Venezuela. É óbvio que a Venezuela é dos venezuelanos, que os pobres devem ser protegidos pelo Estado. O problema é quando os sucessivos regimes venezuelanos simulam levar à prática as suas ideologias. Porque logo se descobre quem é que persegue e quem é que ‘rouba’ o povo venezuelano. Vem isto a propósito de mais uma crise naquele País que acolhe milhares de famílias portuguesas. ‘Mais uma’, não; porque esta crise ameaça deixar marcas profundas, senão mesmo concretizar esse secreto desejo de ‘cubanização’ da Venezuela. O cenário actual do País retrata-se em poucas palavras: a fertilidade da Venezuela continua subaproveitada porque o Estado continua a incentivar a subsidiodependência e a negar a produção e o empreendedorismo; porque é preciso importar quase tudo, são necessários dólares; porque são necessários dólares e o petróleo venezuelano não chega para tudo, o Estado fomenta como nunca o ‘mercado paralelo’, que por sua vez gera a inflação galopante que sobe de dia para dia; sem capacidade de gerar receitas, sem capacidade de fornecer os dólares suficientes para a compra dos produtos básicos, mas mantendo a mania eleitoralista de tabelar os preços, o único resultado possível está à vista: prateleiras de supermercados sem os produtos básicos! Exacto: o País que oferece petróleo a torto e a direito, não tem dólares para encomendar papel higiénico (não é força de expressão, é mesmo papel higiénico que não há...) Podíamos perguntar: que raio de País nem consegue produzir papel higiénico para consumo próprio? E porque não produz a Venezuela outros produtos essenciais? Porque é que é necessário importar tudo? A tentativa de resposta a estas questões simples levar-nos-ía a outras discussões. Fica para uma próxima oportunidade. No que respeita ao momento actual da Venezuela, pernicioso, é evidente que o Estado venezuelano tem o dever de controlar e travar os especuladores. Se há empresas que recebem milhões em dólares preferenciais (10 vezes mais ‘baratos’ que o mercado paralelo) para as suas encomendas, é criminoso que depois coloquem os produtos à venda com preços agravados. E ainda mais criminoso quando os dólares do Estado são desviados para contas no estrangeiro. Mas o que também é criminoso é o Estado não querer saber que, por detrás dessas operações fraudulentas, estão ilustres cidadãos venezuelanos, alguns bem metidos nas cúpulas do governo ou do PSUV (partido do poder), que ‘roubam’ ou facilitam os desvios a terceiros, tudo feito de forma descarada contra o Povo venezuelano, o tal que dizem oprimido e que seduzem agora, sem escrúpulos, com manobras eleitoralistas. ‘La lana sobre los ojos’. Areia para os olhos... Para além do mais, nenhum governante teve, até agora, a coragem suficiente para acabar com o escândalo do preço dos combustíveis. Porque seria uma medida nada popular. A verdade é que a gasolina é “regalada” (oferecida) a qualquer pessoa que se abasteça na Venezuela. Nas ‘bombas de gasolina’, é mais caro lavar o vidro da viatura do que encher o depósito. O custo de um abastecimento na Europa é mais do que suficiente para um ano (!) de abastecimentos semanais na Venezuela. Demasiado ridículo, e escandaloso, quando se sabe que, com o simples aumento de uns cêntimos por litro de gasolina, haveria dinheiro para permitir as encomendas de produtos básicos. E até haveria verba para mandar modernizar as obsoletas estruturas – com falta de manutenção – da produção de petróleo no País. Qualquer dia ouviremos dizer que a Venezuela tem petróleo, mas não tem equipamentos para o ‘sacar’. Porque a governação venezuelana está mais preocupada com outros ‘saqueios’.